A bariátrica e as mudanças além do físico: o atendimento psíquico no processo de recuperação
Apoio psicológico e psiquiátrico no pós-operatório é decisivo para resultados duradouros
Foto: Reprodução/Hospital das Clínicas
A cirurgia bariátrica pode ser considerada como uma forma de esperança para muitas pessoas que lutam contra a obesidade. No entanto, para realizar o procedimento é necessário uma série de acompanhamentos médicos que irão determinar se o paciente está apto ou não, a ser submetido a cirurgia, entre eles, o psíquico.
Após diversos anos lutando contra a perda e o aumento de peso, há quase duas décadas, Célio Cruz, de 54 anos, fez a cirurgia bariátrica. Apesar do procedimento, o reganho de peso passou a conviver com Célio com o passar do tempo.
“Eu já vinha num extremo cansaço das idas e vindas do efeito sanfona, engorda e emagrece, e eu acreditava que fazendo esse procedimento isso ia dar uma regularidade na manutenção do peso. A gente tem a falsa ideia, algumas vezes, de que está tudo resolvido pelo resto da vida. No meu caso, o efeito sanfona perdurou”, revela.
O caso de Célio é mais comum do que imaginamos. Uma pesquisa realizada pela Universidade de São Paulo (USP), em 2023, apontou que cerca de 92% dos pacientes que passam pela cirurgia voltam a ganhar peso após dois anos do procedimento. Para se ter noção, é como se o paciente adquirisse 20% do peso perdido para fazer a cirurgia. Segundo o estudo, o ‘rebote de peso’ coincide com o rompimento do acompanhamento psicológico por parte dos pacientes, situação pela qual Célio passou.
“A vida apresenta desafios, você pode ter problemas, afeta sua cabeça, você acaba, às vezes, negligenciando quanto a questão do controle alimentar e do abandono da atividade física. Foi uma certa negligência mesmo, achar que era o suficiente e o bastante que não haveria mais problema, né? No primeiro momento, a perda de peso é muito intensa, mas a manutenção é um desafio e realmente foi uma falha da minha parte”, reflete Cruz.
O suporte especializado no pós-operatório é essencial para observar a adesão ao novo estilo de vida e não comprometer os resultados atingidos, como explica a psiquiatra, Cecília Macêdo.
“Então, seguir o acompanhamento desse paciente durante todo o processo e no pós-operatório é fundamental. É super aconselhável que o psiquiatra faça parte de todo o processo. Mesmo no pós, quando o paciente está ali na sua recuperação, está evoluindo bem do ponto de vista clínico, ainda assim, ele precisa ser avaliado periodicamente pelo psiquiatra também por conta de ajustes de medicação, de avaliação de expectativa, como é que ele está se sentindo, o impacto na autoestima e a capacidade de conseguir realmente aderir aquilo que foi proposto do ponto de vista comportamental.”
A psiquiatra do Hospital Universitário Oswaldo Cruz e ex-presidente da Sociedade Pernambucana de Psiquiatria, Kátia Petribu, complementa alertando que, em casos mais graves, o paciente pode vir a adquirir outros tipos de dependência no pós-operatório.
“A gente chama isso transferência de compulsão, hora faz uso de comida, hora faz uso de álcool, hora faz o uso de substâncias ilícitas, por exemplo. Daí a necessidade dessa avaliação. Porque muitas vezes era uma pessoa que já tinha outras comorbidades, e as pessoas que fizeram cirurgia bariátrica são pessoas que têm muito mais chances dessa dependência se instalar de uma forma mais rápida”, explica Petribu.
A manutenção do corpo após a realização da cirurgia bariátrica é um desafio contínuo para muitas pessoas, e Célio avalia o caminho que ainda precisa percorrer para se sentir bem consigo mesmo.
“Eu ainda estou lutando, estou com sobrepeso e preciso controlar e perder peso. Esse controle tem que ser eterno, por toda a vida. Enquanto você viver, você tem que estar muito atento a essa dupla que é o controle da alimentação e a prática de exercícios físicos. E isso eu creio que sirva para qualquer cidadão, qualquer ser humano. Mas, em especial, para as pessoas que têm essa dificuldade de controlar o peso e que fizeram a cirurgia bariátrica. Enfim, realmente, um profissional da área tem toda a técnica, tem toda a vivência para passar a orientação”.
O debate sobre o reganho de peso ainda precisa ser ampliado na sociedade, especialmente no que diz respeito à saúde mental do paciente. Pois, é com a avaliação psicológica e psiquiátrica, feita também no pós-operatório, que é possível se prevenir recaídas, tratar distúrbios emocionais e, assim, construir uma nova relação com o corpo e com a comida, sem perder o equilíbrio emocional.
Com produção de Letícia Rodrigues, edição de Daniele Monteiro e sonorização de Lucas Barbosa, reportagem Maria Luna.