Especialistas reforçam que acompanhamento com equipe multidisciplinar é essencial para eficácia do tratamento
Foto: Reprodução/SBCBM
Se locomover sem dificuldades, vestir roupas que vão ficar bem no corpo, ter uma relação saudável com a alimentação. Esses eram desejos que Ana Catarina Lago, de 53 anos, tinha antes de realizar a cirurgia bariátrica. “Eu vinha lutando contra a obesidade há mais de 30 anos. Já fiz inúmeras dietas, até que eu resolvi tentar o programa de cirurgia bariátrica. A gente sempre tem desafio. Para você ter uma ideia, quando eu iniciei o processo, eu estava com 107 kg. Quando fui fazer a cirurgia, eu tinha emagrecido 17 kg”, relata.
Há cerca de 2 meses, ela teve a oportunidade de realizar o procedimento no Hospital das Clínicas de Pernambuco (HC-PE). Hoje, no pós-operatório, ela reflete sobre as mudanças enfrentadas ao longo da vida devido aos desafios da obesidade. “As dores que eu sentia quando estava obesa, acabaram. Eu me levantava de manhã, me segurando nas paredes. E hoje não. Eu vivia cansada, não vivo mais. A mudança de vida é fantástica. Eu digo que minha vida melhorou 100%”, afirma Lago.
O processo em torno da cirurgia bariátrica requer uma série de acompanhamentos médicos. O que faz com que o paciente que está apto a ser submetido ao procedimento conte com equipe multidisciplinar com diversos profissionais como psicólogo, nutrólogo, cardiologista, endocrinologista, educador físico, entre outros. “O trabalho da fonoaudióloga é fantástico. A gente não imagina a importância deles. Ela ensina você a mastigar. Para você ter uma ideia, eu deixei de me engasgar, acredita? Eu me engasgava com a maior facilidade. Eu precisava comer sempre com algum líquido, ou água, ou suco, ou refrigerante. Hoje eu não preciso mais.”
As dificuldades em comer, algo que é instintivo ao ser humano, são comuns para quem é obeso e passa pelo procedimento cirúrgico. O paciente tem que, de fato, reaprender a mastigar, deglutir e consumir a comida, como explica a nutricionista e especialista em Cirurgia Bariátrica e Emagrecimento, Uyara Lima, que reitera a necessidade do trabalho em conjunto dos diversos profissionais. “Então, dois profissionais que, normalmente, não são cobrados, digamos assim, mas que são fundamentais, o fisioterapeuta e o fonoaudiólogo, porque, por incrível que pareça, os pacientes muitas vezes não sabem sequer mastigar, que é aquele paciente que só engole a comida, sequer para, descansar, mastiga. Tudo isso vai acabar gerando mais peso, mais reganho, mais compulsão, e aí volta tudo novamente”, argumenta Lima.
O papel do psicólogo no pré e pós-operatório da cirurgia bariátrica também merece destaque, tendo em vista que, por meio do trabalho do profissional, o paciente pode identificar problemas que possam prejudicar o tratamento e tratá-los da forma mais adequada. Quem explica é a psicóloga, Kátia Cristina de Oliveira, que inclusive fez o acompanhamento de Ana Catarina. “Ela [a paciente] também precisa fazer uma terapia com um psicólogo para que ela tenha uma mudança contínua no comportamento dela, que não é só alimentar, mas é a forma como ela pensa e lida com alimentação e com estresse. Se a gente [psicólogos] identifica um transtorno alimentar, como a compulsão alimentar, nós encaminhamos essa pessoa não apenas para um acompanhamento psicológico, mas também para um acompanhamento psiquiátrico, porque significa que essa pessoa vai ter muita dificuldade de controlar a ingesta de alimentação, então vai precisar de algum tipo de medicação”, pontua Oliveira.
Assim como foi pontuado pela psicóloga, a psiquiatra Cecília Macedo reitera a integração do trabalho com a paciente entre as duas áreas, que se complementam. Enquanto uma lida com as aspectos emocionais, a outra atua com problemas que, por vezes, podem ser comorbidades psiquiátricas que estão diretamente relacionadas ao tratamento das pessoas que precisam da cirurgia bariátrica.
“Existe uma relação bidirecional entre obesidade e transtornos mentais, a depressão mais especificamente. Em relação à bariátrica, normalmente os pacientes candidatos, cerca de dois terços mais ou menos, já têm alguma comorbidade psiquiátrica. Então, na prática clínica, o tratamento é individualizado conforme o tipo de diagnóstico que esse paciente tem de comorbidade psiquiátrica, para que a gente organize o pós-operatório, para garantir que ele consiga realizar ali as medidas que são importantes para que a cirurgia seja bem sucedida, evitando o reganho de peso. Observação também para as medicações que a gente vai utilizar. Alguns tratamentos psiquiátricos podem predispor o aumento de peso, podem ter como efeito colateral o aumento de apetite. A gente observa isso também.”, esclarece Macêdo.
Ao comparar a vida antes e depois da cirurgia, Ana Catarina destaca que o procedimento foi um divisor de águas no seu cotidiano. “Tudo fica muito mais fácil, porque você se movimenta mais facilmente. Até comprar uma roupa., porque quando a gente está obeso, a gente tem muita dificuldade em comprar roupa. Eu costumo dizer que o obeso, ele não veste o que quer, ele veste o que cabe. Muitas vezes eu não gostava daquela roupa, mas era o que cabia, e eu tinha que vestir, e agora não. Eu agora me sinto bem comigo. Eu sei que eu ainda tenho um caminho a percorrer, mas eu já me sinto bem comigo”, enfatiza Lago.
A cirurgia bariátrica vai além da perda de peso. O paciente passa por uma verdadeira transformação física, emocional e comportamental, que requer preparação e acompanhamento com diversos profissionais. É com o procedimento que o paciente também aprende que o processo não termina na mesa de cirurgia, mas que ele é apenas o ponto de partida para uma nova forma de se relacionar com o corpo, com a comida, com a mente e com a própria vida.
Com produção de Letícia Rodrigues, edição de Daniele Monteiro e sonorização de Lucas Barbosa, reportagem Maria Luna.