Entenda como o Complexo Portuário do Litoral Pernambucano atua em prol de uma agenda sustentável
Foto: Miva Filho/Secom e Porto de Suape
Os terminais portuários são importantes polos de ligação e transferência de insumos e mercadorias entre a terra e a água. É por intermédio dos portos que grandes indústrias formam um complexo multidimensional, onde cargas, navios e cidades se conectam com um objetivo comum: desenvolver a economia de um país. Mas, o desenvolvimento desses espaços precisa caminhar lado a lado com a responsabilidade socioambiental, a fim de suprir as demandas da atualidade sem comprometer as necessidades de gerações futuras, como explica a advogada especialista em Direito Marítimo, Portuário Ambiental e Aduaneiro, Ingrid Zanella, que cita o Porto de Suape, em Ipojuca, no Litoral Sul pernambucano, como um exemplo neste contexto. “Todo porto deve sempre focar em inovação e sustentabilidade. Ao pensar em um porto verde, a gente está falando não só de eficiência ambiental, como de redução de custos e obviamente redução da poluição. Suape tem tudo para se transformar num hub de sustentabilidade no cenário nacional. Aqui já existem empresas que estão se instalando para desenvolvimento hidrogênio verde, do e-metanol, já se fala em plantas e empreendimentos portuários, que vão ser pautados e desenvolvidos com a eletrificação. Isso tudo reduz a poluição atmosférica e traz um novo nicho para desenvolvimento dessas atividades”.
Além da adoção de novas tecnologias, o Complexo Portuário de Pernambuco também está alinhado a normas jurídicas nacionais e internacionais, como aponta Zanella. Segundo ela, a legislação marítima e portuária pernambucana incorpora boas práticas sustentáveis que vão desde a gestão de resíduos ao controle da poluição atmosférica. “Todas as empresas que se instalam dentro da poligonal do Porto Organizado são empresas que ficam regidas por uma série de normas que possibilitam que elas atuem de forma legal, sempre visando a sustentabilidade. São diversos órgãos que disciplinam o funcionamento dessas atividades dentro da poligonal de um Porto Organizado. A legislação pernambucana é uma legislação avançada. Nossa normas de padrão de sustentabilidade são normas em conformidade com esse panorama nacional e internacional, trazendo a taxa de enxofre reduzida para 0,5 de embarcações, reduzindo a poluição atmosférica, trazendo desconto tarifário para essas empresas que já têm normas maiores de sustentabilidade”.
Localizado em uma área de mais de 17 mil hectares na mata atlântica, onde também abriga biomas de restinga e mangue, o Complexo Industrial do Porto de Suape destina 59% de seu território à preservação ambiental, dentro da Zona de Preservação Ecológica (ZPEC). No local, são desenvolvidas ações como a produção de mudas nativas do bioma Mata Atlântica para o reflorestamento e a recuperação ambiental, criação de um centro de excelência voltado à inovação e à produção de hidrogênio verde, além de ensino ambiental e empreendedorismo social com a comunidade da região.
O atracadouro pernambucano conta ainda com um Comitê Permanente de Resiliência Climática e Transição Energética, onde são desenvolvidas ações como o Plano Suape Carbono Neutro, que visa liderar a transição para uma economia de baixo carbono, e o Programa Suape Carbono Neutro, onde a estatal assume o compromisso de atingir a neutralidade nas emissões de gases de efeito estufa (GEE) até 2038. Suape implementou também o Caderno de Boas Práticas de Descarbonização do porto, desenvolvido em parceria com o HUB ODS Pernambuco, com empresas e instituições atuantes em seu território que compartilham iniciativas com conteúdos voltados à transição energética.
Prestes a completar 47 anos de existência, o Complexo Industrial do Porto de Suape trilha uma caminhada rumo à transição energética e à descarbonização, com ações estruturantes de sustentabilidade, inovação e governança climática, o que fez com que Suape alcançasse, em 2024, entre os portos públicos do Brasil, a 1ª posição no Índice de Desempenho Ambiental (IDA) da Agência Nacional de Transportes Aquaviários (Antaq). O complexo também ganhou o prêmio ESG 2024 da Federação das Indústrias de Pernambuco (Fiepe) com o Projeto Estação Compartilhar, e recebeu o Selo Pró-Clima da Aliança Brasileira para Descarbonização de Portos (ABDP).
Essas iniciativas fortalecem o trabalho que o parque industrial desenvolve voltado para energias renováveis, ações de preservação de patrimônio natural, entre outras medidas, como detalha Sóstenes Alcoforado, assessor de Transição Energética do Porto de Suape. “Eu posso destacar a restauração de 1.060 hectares na zona especial de preservação, com milhões de árvores replantadas. Além disso, eu posso acrescentar a condução do estudo de viabilidade e técnica econômica para a eletrificação de navios atracados. Essa modalidade, que se chama On Power Supply, vai reduzir significantemente a queima de combustíveis fósseis nas operações portuárias. E expandimos a agenda climática para os municípios do entorno do território estratégico de Suape. Um inventário de emissões de gases de efeito estufa, análise de risco e vulnerabilidade climática e um plano de ação climática também [foram feitos]”, destaca Alcoforado.
Segundo Alcoforado, apesar da implementação de boas práticas verdes, Suape ainda enfrenta entraves no que diz respeito ao ambiente industrial. “Quando se fala de entraves, a gente normalmente pensa no tempo que a transição tem que cumprir para se realizar. E uma transição energética, como as outras que nós já passamos ao longo da história da humanidade, nunca se faz da noite para o dia. Então, um dos principais entraves é a questão do convencimento do empresariado de que não se trata de um investimento em vão, se trata realmente de uma causa nobre e hoje nós já percebemos as mudanças climáticas que já assolam o mundo inteiro. Um outro entrave é que o governo tenha um papel fundamental no que diz respeito ao financiamento para que esses projetos se tornem realidade”, enfatiza.
Nesse contexto, o Governo Federal desempenha um papel decisivo com a construção de políticas públicas para incentivar a adoção de uma indústria mais limpa e alinhada às exigências ambientais globais. Em portos como o de Suape, essas medidas são estratégicas para garantir a viabilização de investimentos verdes no setor portuário e industrial, como destaca o professor de Economia da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Francisco Cavalcanti. “O financiamento público tem um papel importantíssimo para acelerar a transição da indústria em uma direção à sustentabilidade, especialmente em um estado como Pernambuco. Quando o BNDES, ou qualquer fundo estadual, oferece crédito em condições melhores, com juros menores ou prazo mais longos, essas empresas conseguem investir em tecnologias que ainda são caras, como por exemplo o sistema de energia renovável ou em processos de economia circular. Empresas verdes tendem a ter acesso facilitado à linha de crédito, incentivos fiscais e até novos mercados, porque cada vez mais consumidores, tanto no Brasil como no exterior, estão atentos à sustentabilidade da cadeia produtiva. Isso significa que a inovação verde gera não apenas ganhos de imagem, mas também ganhos de produtividade e competitividade para a economia local”, explica o economista.
Este primeiro episódio da série “A indústria verde em Suape” reflete sobre como o encontro entre legislação, empenho político e práticas empresariais podem unir forças em prol de uma agenda sustentável. No segundo episódio, vamos falar sobre indústrias que apostam na sustentabilidade dentro do Porto de Suape e quais os desafios que as empresas enfrentam nesta jornada.
Com produção de Letícia Rodrigues, edição de Daniele Monteiro e sonorização de Evandro Chaves, reportagem Maria Luna.