Os desafios e os pilares da indústria sustentável no Porto de Suape
Foto: Divulgação/GoVerde
O futuro industrial no mundo contemporâneo depende da capacidade das empresas de se reinventarem a partir da sustentabilidade. Se algumas décadas atrás, adotar posturas sustentáveis era visto como um diferencial, hoje, a prática é quase obrigatoriedade para que as empresas permaneçam no mercado. Em Pernambuco, o movimento já ganha corpo com pequenas indústrias e até grandes multinacionais que atuam na busca por inovação verde a fim de reduzir os impactos ambientais.
Mas para que as ideias dessas empresas sejam transformadas em projetos concretos são necessários recursos, conhecimento técnico e, em muitos casos, apoio de políticas públicas e linhas de crédito específicas. E é aí que surgem os desafios, como destaca o presidente da Federação das Indústrias do Estado de Pernambuco (FIEPE), Bruno Veloso. “As linhas de crédito verde vão evoluindo e isso vai ser uma prática cada vez maior, uma vez que o mundo todo caminha para a estabilidade. O que nós temos hoje é uma dificuldade de crédito, uma vez que a empresa, para acessar o crédito, ela precisa estar com todas as suas documentações, ela tem que estar com todas as suas certidões negativas atualizadas e isso tem uma certa dificuldade diante da economia ter passado por tantas dificuldades e as empresas também”.
Na busca por financiamentos voltados a energias renováveis, reaproveitamento de recursos e redução de emissões, as instituições nacionais, e até locais, podem oferecer boas opções para o empresariado que deseja se capitalizar. A Associação Brasileira de Desenvolvimento (ABDE), por meio de ações de fortalecimento do Sistema Nacional de Fomento, grupo composto por Instituições Financeiras de Desenvolvimento (IFDs) de todo o país, é um exemplo neste contexto. A presidente da ABDE, Maria Fernanda Coelho, detalha como funcionam as duas principais frentes de atuação da associação. “A primeira delas é o acesso ao conhecimento, o que a gente observa é que muitos dessas empresas desconhecem quais as linhas que estão disponíveis para a sua empresa, seja capital de giro, compra de máquinas e equipamentos que vão permitir que a empresa tenha essa diretriz dentro de um plano de transformação ecológica, no processo de digitalização, de aumento da sua produtividade e que possa então estar alinhada com toda a estratégia que foi definida. Então, a primeira linha seria essa, uma linha de capacitação. E a segunda linha tem relação com esse próprio fórum de desenvolvimento que estamos organizando aqui, estreitar então os atores, toda a composição do nosso time nacional de fomento, que são os bancos públicos, os bancos estaduais de desenvolvimento, as cooperativas de crédito, as agências de fomento, junto com os empresários, para que nesse processo de articulação você encontre soluções que sejam soluções adequadas, especialmente para as pequenas e médias empresas”, explica Coelho.
Esse processo de consolidação da sustentabilidade abrange diversos desafios. Mesmo com o auxílio das linhas de financiamento, as empresas ainda precisam passar por uma curva de aprendizado junto aos órgãos ambientais para assegurar as normas locais. É necessário que as iniciativas entendam a verticalidade do segmento que, além de econômico e ecossistêmico, também é essencialmente social.
Ricardo Junqueira, presidente da GoVerde, empresa desenvolvedora de projetos de energia limpa que está presente no Polo de Suape, exemplifica como a conexão humana foi essencial para não somente incluir a comunidade na iniciativa da qual ela também faz parte, como legitimar o trabalho realizado pela empresa na região. “Quando a gente iniciou o desenvolvimento dos projetos de energia, ainda era um tema muito ‘não bem entendido’ pelo mercado e principalmente pelos agentes reguladores. Eu vejo que os principais desafios foram essas etapas iniciais e depois a gente construiu um grande relacionamento com os proprietários das áreas, porque hoje essas áreas são arrendadas e a gente gera renda para mais de 38 famílias em Pernambuco. Famílias que muitas vezes não tinham renda, porque a área não tinha nenhuma atividade agrícola”, explica Junqueira.
Neste episódio da série “A indústria verde em Suape”, compreendemos como a sustentabilidade industrial não se limita à regulação. É com a criatividade empresarial, acesso a crédito, parcerias estratégicas e atenção ao contexto social que a indústria de Suape dá vida a projetos viáveis, competitivos e financeiramente sustentáveis. No terceiro e último episódio, iremos trazer os impactos da adoção de práticas sustentáveis dentro do porto e como isso reflete na economia de Pernambuco.
Com produção de Letícia Rodrigues, edição de Daniele Monteiro e sonorização de Evandro Chaves, reportagem Maria Luna.