A literatura em tempos digitais: Brasil registra queda expressiva no número de leitores
Em Pernambuco, a falta de tempo e a rotina escolar intensa aparecem entre os principais fatores que afastam os estudantes dos livros
Foto: Letícia Rodrigues/CBN Recife
A última edição da pesquisa “Retratos da leitura no Brasil”, realizada pelo Instituto Pró-Livro, em 2024, apontou que pela primeira vez, desde 2007, o país registrou mais não leitores do que leitores. De acordo com o levantamento, 53% da população não chegou a ler nem mesmo o trecho de um livro nos últimos 3 meses, seja ele impresso ou digital.
Em Pernambuco, uma análise feita pelo Centro Universitário Frassinetti do Recife (Unifafire) apontou que 57,43% dos entrevistados afirmam que a principal barreira para o hábito da leitura é a falta de tempo. Esse é o caso do estudante da rede de educação estadual João Gabriel Silva, de 18 anos. Segundo o adolescente, mesmo tendo interesse por literatura, a rotina é o principal empecilho.
“Eu estudo tempo integral, então isso dificulta muito na leitura porque você foca muito em outras coisas também. Aí sobrecarrega a cabeça da pessoa. E não é só comigo, mas a maioria tem essa dificuldade justamente por conta da sobrecarga escolar”, contou o estudante.
Apesar de ser essencial para o desenvolvimento estudantil, não apenas por ampliar o vocabulário e a escrita, mas também por estimular o senso crítico, a literatura está cada vez mais em segundo plano. Apesar disso, estudantes têm procurado outras alternativas para realizar as atividades escolares que dependem essencialmente da leitura, como relata o estudante Bruno Eduardo, de 17 anos.
“Raramente, eu vejo todas as leituras. Geralmente é resumo artificial e por aí vai”, revelou.
Lívia, de 16 anos, e Larissa Vieira, de 17, também compartilham a prática de fazer as atividades baseadas em resumos das obras. Para elas, o interesse pelo livro pode ser afastado pela forma como ele é introduzido na sala de aula e pela falta de identificação.
“Assim, eu não gosto de ler livros por obrigação. Se o professor não tivesse passado, eu leria, mas como ele passou, daí eu pego o resumo”, argumentou Lívia.
“Se o livro for um livro que me agrade, aí eu vou ler ele. Agora, se for um livro, assim, que eu não goste… aí a gente pega um resumo no YouTube”, completou Larissa.
O autor do best-seller ‘O avesso da pele’, Jeferson Tenório, que já foi professor de linguagens e de literatura na rede pública de ensino, afirma que os obstáculos para disputar a atenção dos estudantes são diversos.
"As escolas têm feito um esforço grande para formar leitores, né? A gente tem uma competição por atenção dos jovens de modo geral, mas eu acho que a juventude tem se interessado mais por literatura. Talvez eles não estejam lendo aquilo que a gente quer que eles leiam. Talvez o Brasil ainda tenha uma carência de uma literatura infanto-juvenil que contemple aquela idade ali, que eu acho que é a idade mais difícil, dos 12 anos até os 18 anos. Esse período é o período que a gente mais perde leitores, né? Na sala de aula, os professores percebem isso".
Ele ainda destaca que valorizar e reinventar o contato com os livros é essencial, já que a literatura vai muito além do entretenimento: ela forma, transforma e permanece.
“Eu acho que a literatura tem um modo de chegar nas pessoas de maneira mais profunda. É diferente de você ver uma notícia no jornal e, depois, daqui a cinco minutos, já não lembrar mais daquela notícia. Já o livro envolve você com as personagens, traz uma complexidade no discurso, reflexões sobre o que está acontecendo. Então, eu acho que a literatura é importantíssima e ela tem que ser vista como algo básico na vida das pessoas. Assim como arroz e feijão, o livro também tem que ir na cesta básica”.
Também professora, Beatriz Macedo, que trabalha na Escola Antônio Burgos, em Santa Cruz do Capibaribe, no Agreste do estado, reconhece o desafio de concorrer com as telas pela atenção dos jovens. O que tem feito ela apostar em estratégias que unam o universo digital ao literário.
“Mas é levar, aquilo que eles gostam para mostrar através de atividades lúdicas e mostrar dentro do livro aquilo que tá presente. É uma grande estratégia que a gente utiliza, porque, querendo ou não, aqueles vídeos rápidos do Tik Tok, da internet, acabam se tornando mais atrativos do que o livro que é lento, é cansativo, né? A leitura acaba sendo monótona para a realidade que a gente tem hoje. Mas a estratégia de querer mostrar, trazer esses dois mundos é a melhor estratégia. Você tem que levar como isso pode servir dentro do mundo, dentro da rede, para tentar misturar esses dois elementos, porque para separar não tem como, e eles não leem”, explicou a professora.
A queda no número de leitores revela a necessidade de repensar a forma como a leitura é apresentada às novas gerações. Mais do que cobrar o hábito da leitura, formar leitores exige construir um vínculo real entre as vivências dos jovens e as histórias. Afinal, mudar cenários exige, muitas vezes e com a licença do trocadilho, virar a página e reescrever novas formas de nos relacionamos com a literatura.