No Recife, apenas 20% das pessoas em situação de rua são atendidas por algum serviço ou equipamento da prefeitura
Foto: Reprodução/Google Street View
“Vi ontem um bicho
Na imundície do pátio
Catando comida entre os detritos.
Quando achava alguma coisa,
Não examinava nem cheirava:
Engolia com voracidade.
O bicho não era um cão,
Não era um gato,
Não era um rato.
O bicho, meu Deus, era um homem”.
O Bicho
Manuel Bandeira, 1947
O poema “O Bicho”, de Manuel Bandeira, foi escrito no Rio de Janeiro dos anos 1940, há quase 8 décadas, para denunciar uma realidade social cruel e que não ficou no passado. Dados do Observatório Brasileiro de Políticas Públicas com a População em Situação de Rua, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), mostram que, em 2025, mais de 335 mil brasileiros têm a rua como casa. Desses, muitos precisam catar comida entre os detritos, na imundície do pátio, diante de olhos que só fazem ver.
Concentradas nas principais metrópoles do país, como Recife, as pessoas em situação de rua são, em sua maioria, homens, negros e estão dentro da faixa etária que corresponde à População Economicamente Ativa (PEA), entre 15 e 64 anos. Um perfil, várias camadas. Afinal, a vulnerabilidade social também atinge com força a crianças, mulheres e à comunidade LGBTQIA+. E assim como toda a população brasileira, as pessoas em situação de rua estão envelhecendo.
“Eu me chamo de cheiroso como alguém me chamou
Mas pode me chamar do que quiser, Seu Doutor
Eu não tenho nome, eu não tenho identidade
Eu não tenho nem certeza se eu sou gente de verdade
Eu não tenho nada, mas gostaria de ter. Aproveita, seu Doutor, e ‘dá’ um trocado pra eu comer”.
O Resto do Mundo
Gabriel o Pensador, 1993
No Recife, 9ª capital brasileira mais populosa (IBGE), o número de pessoas em situação de rua em 2023 era de 1.806, de acordo com o Censo POP Rua Recife: documento mais recente sobre essa parcela da sociedade e que vai servir de base para este radiodocumentário.
Desse número, à época, apenas 20% eram atendidos por algum serviço ou equipamento da prefeitura, como o Centro de Referência Especializado para a População em Situação de Rua: o Centro POP. O espaço público, previsto na Política Nacional para População em Situação de Rua e que pode ser administrado tanto pela esfera estadual quanto municipal, tem um objetivo claro: garantir dignidade.
Nos Centros POP, as pessoas em situação de rua têm acesso a coisas que nós, domiciliados, só paramos para perceber que são essenciais quando fazem falta, como tomar água, tomar banho, lavar roupas, descansar, guardar pertences e socializar. Entre outras atividades, eles também passam por atendimentos psicossociais e podem tirar dúvidas sobre como tirar documentos, ter acesso a direitos e até vagas de emprego. Os Centros POP humanizam quem normalmente é convidado a não se sentir como gente.
A capital pernambucana conta com quatro Centros POP: três voltados a adultos e um para crianças e adolescentes. De maneira estratégica, eles estão nas Regiões Político-Administrativas (RPA) da cidade onde ficam a maior parte da população em situação de rua.
No Centro do Recife, os Centros POP Glória e Maria Lúcia (RPA 1A E 1B) atendem à principal concentração. Próximo ao Mercado da Madalena, na Zona Norte, está o Centro POP Neuza Gomes, que também contempla as populações da Zona Oeste. E o mais recente - e questionado - dos Centros POP é o José Pedro, localizado em Boa Viagem, na Zona Sul: um bairro que exemplifica bem a palavra desigualdade.
Em Boa Viagem, a segunda maior parcela de pessoas em situação de rua da capital pernambucana vive nas calçadas e esquinas das igrejas, parques e prédios luxuosos que marcam o bairro como o terceiro metro quadrado mais caro do Recife, de acordo com o Índice FipZap (2024).
Não é possível dizer o quanto a altura dos edifícios impede a visualização de um dilema social escancarado, mas também não é novidade que as pessoas em situação de rua são invizibilizadas por quem, podendo ajudar, finge que é apenas do poder público a responsabilidade de “resolver” esse problema. Ainda que fosse, vivemos em uma sociedade que esquece, diariamente, o significado da palavra caridade e penaliza quem lembra da importância dela.
Porém, com o Centro POP de Boa Viagem, inaugurado em 2023, há um ponto a mais para ser observado: ele não para de ser alvo de críticas e protestos, por coisas que vão desde as atividades desempenhadas até o local em que está estabelecido - na Rua Sargento Waldir Correia. Na verdade, a região é reconhecida como Setúbal, mas o equipamento atende a toda RPA6, que ainda contempla Brasília Teimosa, Imbiribeira, Ipsep, Pina, Ibura e Jordão.
Para os defensores do Centro POP, a presença dele em Setúbal atende a uma demanda antiga e que está de acordo com a quantidade de pessoas em situação de rua na RPA 6. Para quem mora e trabalha no entorno, um chamariz de violência, diretamente responsável por aumentar os índices de criminalidade na região. A reporgem da CBN Recife foi ouvir os argumentos de ambos os lados.
“Era dono das ruas, das calçadas e de todas as escadas que encontrava abertas na cidade do Recife. Vez por outra, brigava com malandros que queriam roubar meu rico dinheirinho e assim ia vegetando como "dono" da maior, mais bela e mais miserável cidade do Nordeste, cheia de pontes, em cujas colunas encontrei o abrigo mais seguro e mais tranquilo de todos”.
Memórias da Ditadura
Gregório Bezerra, 1979
O Centro POP por quem faz
Camila Borges é gerente de Proteção Social Especial de Média Complexidade da Secretaria de Assistência Social e Combate à Fome do Recife. Ela reforça, sobretudo, que é educadora social. Em 15 anos de trajetória, também atuou no Serviço Especializado em Abordagem Social, lidando diretamente nos territórios com a população em situação de rua.
Em uma sexta-feira de julho, Camila recebeu nossa reportagem no Centro POP José Pedro. Como em boa parte dos dias, o lugar estava bastante movimentado. Na recepção, algumas pessoas eram submetidas a uma espécie de triagem, onde cada necessidade seria ouvida por um profissional. Logo à frente, tinha quem assistisse atentamente a um filme de terror para passar o tempo. Nos fundos do equipamento, ainda encontramos quem fazia uso da máquina de lavar, ou ainda, aguardava para tomar um banho. Por questão de respeito, não conversamos com os que já tinham entrado em um dos cômodos para descansar.
Antes de tudo, do lado de fora, ao menos cinco pessoas em situação de rua questionavam quando poderiam entrar para tomar banho. Camila Borges explicou que, diariamente, há um quantitativo de atendimentos previstos, mas a medida em que as vagas não são preenchidas, eles permitem a entrada de outras pessoas, gradativamente.
“O Centro POP é um espaço de convívio. Nele nós garantimos a permanência de 50 pessoas por dia. Mas pode variar, porque mesmo nos dias em que não está previsto o atendimento daquela pessoa no equipamento, ela pode aguardar para ter acesso a coisas como tomar banho, pegar a documentação e fazer ligação. Por isso, aqui no (Centro POP) José Pedro a média (por dia) é de 70 a 80 pessoas. No Centro da cidade, são mais de 100 pessoas passando”, afirmou.
De acordo com o Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome (MDS), são 260 Centros POP espalhados por todo o Brasil, com São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro liderando o ranking com mais unidades. Pernambuco é o sétimo estado com mais Centros POP, sendo 11, no total. Além dos quatro na capital pernambucana, os demais estão localizados em Jaboatão dos Guararapes, Paulista, Olinda, Caruaru, Petrolina e Vitória de Santo Antão.
Até julho, Pernambuco tinha 12 Centros POP, mas de acordo com o governo estadual, a cidade de Abreu e Lima, no Grande Recife, encerrou as atividades do equipamento recentemente. A informação ainda não consta no Sistema de Cadastros do Sistema Único de Assistência Social (CADSUAS). Já os municípios do Cabo de Santo Agostinho, Camaragibe e Arcoverde estão com unidades em processo de implantação.
No Centro POP de Boa Viagem, uma das pessoas assistidas é o paulistano Franchesco. A pedido dele, esse nome será utilizado para preservar sua identidade e optamos por alterar o tom de sua voz. Franchesco não soube dizer há quanto tempo está em situação de rua, no Recife, mas descreveu com precisão como se sente.
“Quando eu fico na rua me sinto uma pessoa vulnerável, o que não desejo para ninguém. Eu me sinto, praticamente, um inútil à sociedade, um lixo. Mas como eu tenho Deus na minha vida, permaneço nessa vida da forma que Deus permite. Dias melhores virão”, espera.
"Eu tô com fome, tenho que me alimentar
Eu posso não ter nome, mas o estômago tá lá
Por isso eu tenho que ser cara de pau
Ou eu peço dinheiro ou fico aqui passando mal
Tenho que me rebaixar a esse ponto
Porque a necessidade é maior do que a moral"
O Resto do Mundo
Gabriel o Pensador, 1993
Mesmo diante de tamanha vulnerabilidade, Franchesco falava com esperança. Ele disse não compreender aqueles que desperdiçavam a oportunidade de ter acesso ao Centro POP. “É uma oportunidade para que as pessoas venham buscar um conforto, e até mesmo, expectativa de dias melhores. Esse ambiente aqui nos auxilia quanto ao que a gente mais precisa: um banho, lavar uma roupa.”
E segundo Camila Borges, a atuação do Centro vai além daquilo que é cotidiano, como as atividades citadas por Franchesco. “Tem coisas que, para uma pessoa que tem casa, parecem muito superficiais. Mas que, para as pessoas em situação de rua, só o Centro POP consegue garantir. Nós temos salas de convívio com televisão, mas também temos atividades em grupo. Então, acabamos abrindo as portas de espaços como o Instituto Brennand, vamos até cinemas, produzimos fanzines há mais de um ano, que eles constroem a partir de recortes de jornal, tabelas de vagas de emprego, telefones importantes, e até obituários, infelizmente”, disse.
O fanzine citado por Camila é o “Vozes da Rua”. Em novembro de 2024, a equipe de assistidos pelo Centro POP que produziu o material deu destaque ao Dia Nacional da Consciência Negra, 20 de novembro. Na capa, um dado: 43% dos atendidos nas ruas da RPA 6 são negros. No corpo do fanzine, reflexões sobre a negritude e racismo, um compilado com vagas de trabalho, datas de aniversário, imagens diversas. Mas uma das colagens chama a atenção pela simbologia de quem a escolheu adicionar à produção.
“A doação é um ato solidário
que preenche a alma e semeia a esperança.
Vozes da Rua
Centro POP José Pedro, 2024
Às pessoas em situação de rua, o Centro POP desempenha um papel central para a superação de questões como uso abusivo de drogas e as mais diferentes violências. Mas, sobretudo, ajuda essas pessoas a levantarem a cabeça, olharem para frente e pensarem em soluções que permitam construir um futuro com aquilo que lhes foi historicamente retirado: a humanidade.
Mas até aqui, nós apenas contamos para você aquilo o que de bom é falado por quem faz ou por quem precisa do Centro POP para sobreviver. A questão é que você também precisa saber porque, lá trás, utilizamos a palavra “questionado” para classificar o Centro POP de Boa Viagem. Ou melhor, de Setúbal. E antes, vale fazer uma pausa para explicar o porquê dessa diferença.
Setúbal e a relação com o Centro POP
Setúbal não é um bairro do Recife, mas é como se fosse. Teve até um parecer aprovado pela Comissão de Legislação e Justiça da Câmara de Vereadores para criar esse novo bairro e separar Setúbal de Boa Viagem, em 2018. A coisa não foi muito além disso. Fato é que, do canal de Setúbal pra dentro, não há nada parecido com uma das orlas mais conhecidas do Brasil.
Da Rua Barão de Souza Leão até a Avenida Armindo Moura, tem mais casas do que edifícios, é mais arborizado, e até mesmo, mais convidativo para se viver tranquilamente. Pelo menos, visualmente. Também existe um clima de identidade e independência em relação à Boa Viagem, aquilo que se costuma chamar de “bairrismo”. Setúbal tem até páginas no Instagram para falar sobre o dia a dia da região e - como não se pode fugir disso - de um dos seus principais problemas: a violência.
“Não tinha tanta violência como agora. A gente trabalha com medo. Vem para o trabalho e não sabe se volta (para casa). Quando largo (do trabalho), ‘entoco’ o telefone e os bens materiais de valor, porque a segurança está uma negação aqui em Setúbal”.
Essa que você acabou de ouvir é Tatiana Morais, de 35 anos. Apesar de não morar na região, ela conhece bem o cotidiano por trabalhar em um salão, em Setúbal, há mais de 6 anos. Tatiana foi uma das poucas pessoas abordadas pela nossa reportagem que aceitou gravar entrevista - que é preciso dizer, aconteceu enquanto ela pintava as unhas de uma cliente.
Antes de falar com ela, nós já haviamos visitado padarias, restaurantes, papelarias, e até um ponto de táxi. E uma palavra define os relatos de todos aqueles que preferiram preservar a identidade: medo. Prova que, em Setúbal, boa parte dos comércios funcionam com grades fechadas - e em alguns deles, o atendimento é unicamente feito da porta para fora.
Do relato de todas as pessoas com quem conversamos, uma coisa também ficou bastante clara: para os que moram perto da Rua Sargento Waldir Correia, onde o Centro POP está localizado, ele é o principal causador do aumento da violência na região. Ou melhor, não ele, mas as pessoas em situação de rua que frequentam o espaço e, supostamente, aproveitam a oportunidade para planejar assaltos e furtos no entorno.
No dia em que visitamos o Centro POP, um morador de Setúbal, que preferiu o anonimato, nos contou sobre o furto a uma bomba d’água de uma empresa a metros do equipamento municipal. Por Whatsapp, ele nos passou o vídeo onde alguém não identificado fez o registro. Optamos por alterar a voz dessa pessoa.
‘Eles’ invadiram por aqui quebrando a cerca elétrica, dando total prejuízo à empresa. ‘Olha aí’, a cerca elétrica detonada. Roubaram o ar-condicionado. ‘Olha aí’! Parabéns aos envolvidos! Olha o prejuízo da empresa. Parabéns, ‘viu’! Dá ‘pra’ ver o Centro POP daqui, ‘viu’! É o quintal deles, né? ‘Eles’ fazem o que ‘eles’ querem. Mais um arrombamento”.
Anônimo
Whatsapp, 2024
‘Eles’, que você ouviu algumas vezes, são as pessoas em situação de rua atendidas pelo Centro POP.
“Temos medo de andar ‘devido a eles’. ‘Eles’ abordam a gente, não tem horário. A polícia vem mais à noite, mas ‘eles’ vivem mais (aqui) de manhã e à tarde. É raro a gente ver ‘eles’ à noite”.
Essa é Márcia, de 35 anos, moradora da região. Durante a conversa com a nossa reportagem ela também repetiu algumas vezes o termo “eles” para se referir aos assistidos pelo Centro POP. Ou seja, é como ‘eles’ normalmente são chamados. Márcia também afirma que a violência em Setúbal só tem aumentado e que a chegada do Centro POP, em 2023, foi determinante para isso.
Antes de a Prefeitura do Recife bater o martelo pela instalação do Centro POP em Setúbal, vários protestos contrários ao equipamento foram feitos. Em um deles, uma placa carregada por moradores questionava: "onde foi parar a paz e a segurança de Setúbal?". Outra afirmava: "ao invés de mais policiamento nas ruas, teremos um fluxo de usuários de drogas aumentando a violência no bairro".
À época, um abaixo-assinado com mais de 4 mil assinaturas foi a formalização do quanto a chegada do Centro POP a Setúbal era rejeitada. Marco José, de 68 anos, dono de um restaurante na rua ao lado do equipamento há pelo menos 17 anos, foi um dos assinantes. Homem de fala fácil e orgulhoso do lugar onde mora há 45 anos, ele nos deu um panorama sobre a localidade.
“Esse Centro POP fica localizado em uma rua tranquila, onde mais de 60% dos moradores são idosos. E as edificações, em sua quase totalidade, são casas - que não tem porteiro nem vigilância. Então, a chegada desse Centro POP aglutina um grande número de pessoas, inclusive um número muito além da capacidade de atendimento do centro. O Centro cumpre o seu caminho de atender às pessoas, mas estamos num momento em que você cobre o grupo de pessoas que estão em situação de rua e descobre os moradores”, afirma.
A residência onde o Centro POP está, bem ao centro da Rua Sargento Waldir Correia, foi alugada pelo município em 25 de março de 2022, segundo publicado no Diário Oficial do Município. Com base nos questionamentos feitos pelos moradores, nós perguntamos a prefeitura por que o Centro POP está sediado exatamente naquele lugar.
Em nota, a gestão municipal disse que “seguiu critérios técnicos, com base nas orientações do Governo Federal para a implantação desse tipo de equipamento. (...) O imóvel, embora não pertença à Prefeitura, foi selecionado por reunir condições adequadas para o funcionamento do equipamento, como infraestrutura compatível com as demandas e fácil acesso por transporte coletivo”.
No documento elaborado pelo Ministério da Assistência e Desenvolvimento Social (MDS), em 2011, do então governo Dilma, com orientações técnicas sobre a atuação dos Centros POP, o trecho que trata sobre a implantação desse equipamento diz o seguinte:
“Cabe ao órgão gestor local o planejamento e a implantação do Centro POP, tanto no que se refere à definição de sua localização, espaço físico e recursos humanos, quanto ao quantitativo de unidades a serem implantadas na localidade. Para tanto, deve considerar o reconhecimento do território, com suas especificidades e características de ocupação. Nesse sentido, a implantação da Unidade deve ser precedida da elaboração de um diagnóstico socioterritorial que identifique as áreas de maior concentração e trânsito dessa população, bem como sua dinâmica de movimentação”.
Orientações Técnicas: Centro de Referência Especializado para População em Situação de Rua – Centro Pop
Ministério da Assistência e Desenvolvimento Social (MDS)
O texto ainda estabelece que “devido a sua peculiaridade, o Centro POP seja implantado em local de fácil acesso, com maior concentração e trânsito das pessoas em situação de rua”. Para o presidente da ONG Samaritanos Recife, Rafael Araújo, o local onde está o Centro POP de Setúbal atende a todas essas características.
“A gente tem uma concentração (de pessoas em situação de rua), primeiro, no Centro de Recife, e a segunda maior concentração está em Boa viagem. Então, havia uma necessidade de mais equipamentos para essa população na RPA em que Boa viagem está situado. Não é que o centro POP atraia a população de rua para o local. Pelo contrário, o Centro POP foi implantado no local em que já existia uma grande concentração, na intenção de começar a organizar essa população naquele território”, pontuou.
Na época de toda discussão sobre a viabilidade da instalação do Centro POP em Setúbal, Rafael agiu de maneira ativa para defender a causa por acreditar no poder de transformação que ela tem. Há 15 anos atuando diretamente com a população em situação de rua, Rafael aponta, no entanto, que há problemas a serem observados.
“O Centro Pop é a porta de entrada do Sistema Único de Assistência Social (SUAS) para essa população em situação de rua. Obviamente, o Centro POP tem suas limitações. Por exemplo, o quanto o fato desse equipamento ter, aqui no Recife, um local de alimentação prejudica o serviço. Acho que muita gente vai só por causa da alimentação e acaba prejudicando quem vai lá para se organizar”, entende.
Alguns moradores com quem conversamos, como Marco José, também disseram ser contrários à oferta de alimentação pelo Centro POP por, possivelmente, atrair mais pessoas. Perguntamos a Prefeitura do Recife se ela gostaria de se posicionar sobre a afirmação.
A gestão municipal disse que, segundo dados do censo da população em situação de rua, 65% das pessoas ouvidas já passaram um dia inteiro sem se alimentar, e 35,5% relataram dificuldade em conseguir o café da manhã. Por isso, diante da ausência de equipamentos públicos como o Centro POP, ou de políticas de segurança alimentar integradas, a oferta de alimentação nesse tipo de unidade não é apenas necessária: é uma ação estratégica para garantir acolhimento e adesão ao acompanhamento psicossocial, favorecendo o processo de reinserção social.
Violência
Até aqui, você já ouviu tudo aquilo que o bom jornalismo preza. Diferentes versões e pontos de vista, dados que nos ajudam a compreender a complexidade do assunto, que é gigantesca. Mas eu queria que, se possível, você se fizesse uma pergunta. Se o Centro POP não fosse em Setúbal, onde ele seria? Ou ainda, se ele fosse em outra rua, em outro bairro, ou até em outra cidade, o olhar sobre o Centro POP mudaria?
São perguntas que podem não ter uma resposta clara, principalmente porque uma coisa é fato: os moradores de Setúbal sofrem com a violência dia após dia. Mas ela realmente tem a ver com o Centro POP?
Nós procuramos a Secretaria de Defesa Social de Pernambuco (SDS-PE) e pedimos duas informações: quantos Crimes Violentos Contra o Patrimônio (CVPs) foram registrados de 2022 até junho de 2025 na área de Setúbal, e considerando o mesmo período, quantas foram as Mortes Violentas Intencionais (MVIs).
Segundo a SDS, por não divulgar informações referentes a bairros, que são estratégicas para a Segurança Pública, os dados repassados foram os da Área Integrada de Segurança 3, onde Boa Viagem, e por consequência, Setúbal, estão inseridos - assim como Brasília Teimosa, Cohab, Ibura, Imbiribeira, Ipsep, Jordão e Pina.
Quanto aos CVPs, a Gerência Geral de Análise Criminal e Estatística (GGace) da SDS registrou 4.060 ocorrências em 2022, caindo para 3.705 em 2023 e novamente subindo para 4.192 em 2024. Nos seis primeiros meses de 2025, as ocorrências fecharam em 1.896, enquanto no ano anterior o número chegou a 2.116. Uma redução de 10,39%. Já as Mortes Violentas Intencionais (MVI) foram 3.427 em 2022, 3.641 em 2023 e 3.453 em 2024. De janeiro a junho de 2025, foram 1.623 casos, contra 1.837 no mesmo período de 2024, uma redução de 11,64%.
Mas do ponto de vista específico sobre Setúbal, para nós, esses dados são inconclusivos sobre o aumento ou a diminuição da violência na região. E ainda mais, se as pessoas em situação de rua assistidas Centro POP estão vinculadas a essa variação ao longo dos anos. E para Camila Borges, gerente de Proteção Social Especial de Média Complexidade da Secretaria de Assistência Social do Recife, uma coisa não tem nada a ver com a outra. “A discussão sobre segurança pública precisa ser feita, mas ela não pode ser associada diretamente à população em situação de rua. Em Setúbal, pelo que os próprios moradores traziam, já havia uma questão (de violência) que precisava ser dialogada independente da existência do Centro POP”, apontou.
Perguntamos a todos os moradores, identificados ou não nesta reportagem, como era a presença da Polícia Militar no entorno do Centro POP. Marco José, dono do restaurante, disse que, normalmente, observa as viaturas em coboio, mas sente falta de uma atuação mais vigilante. “Já cheguei a ver três ou quatro viaturas em grupo, mas a abordagem ainda é muito longe da realidade. Grande parte dessas pessoas (os moradores em situação de rua) andam com estilete. Essas tesouras grandes, eles quebram e transformam em dois canivetes. Tudo é transformado em arma”, aponta.
Segundo a Polícia Militar de Pernambuco (PMPE), o policiamento feito na área do Centro POP é realizado por viaturas comuns e motopatrulheiros, 24 horas por dia, todos os dias da semana. As viaturas do programa Pernambuco Seguro também atuam na região, além das ciclopatrulhas na orla. A polícia ainda cita que a Base de Polícia Comunitária – Koban atua em integração com a comunidade, contribuindo para a prevenção e repressão à criminalidade. Os moradores de Setúbal, no entanto, afirmam que não sentem isso na prática.
Impasse
Apesar de toda essa discussão, que não acaba aqui, fica no ar um sentimento angustiante de que o impasse entre os moradores de Setúbal e o Centro POP está longe de ser resolvido.
“A maior parte dos moradores ainda têm uma resistência quanto ao atendimento à população em situação de rua. O que não é geral. Tem aqueles que nos procuram para entender o que é um Centro POP, como é o funcionamento. Mas é um número ainda pequeno em relação à resistência que existe. Você tem medo do que não conhece, e isso é o preconceito. Todo mundo quer que a política pública resolva o problema, mas ninguém quer os equipamentos no território. Essa é uma conta que não fecha! Lógico que estamos abertos ao diálogo sobre ideologias, a dinâmica, os horários, mas uma coisa certa é que precisa haver Centros POP”, afirmou.
Camila Borges aponta para um fato: os equipamentos precisam estar nos territórios, senão, não há política pública que avance para dar às pessoas em situação de rua o mínimo de dignidade. Se com os Centros POP já é difícil alcançar essa população, imagine sem eles. E Para o presidente da ONG Samaritanos Recife, Rafael Araújo, todo processo também passa pela superação de preconceitos. “A empatia vence o preconceito de achar que as pessoas estão lá porque querem. O preconceito impede você de conhecer os dados, as pesquisas, e te faz ficar baseando suas opiniões em achismos e posts de Instagram”, conclui.
Longe das redes sociais e sofrendo diariamente com a insegurança, os moradores de Setúbal talvez peçam por algo que, até então, não tenha sido levado em consideração. Que o estado e o município se esforcem para olhar, juntos, para a complexidade de todas as informações que aqui foram ditas. Quem sabe assim, em algum momento, a relação de Setúbal com o Centro POP possa caminhar para um lugar onde o preconceito não cegue olhos e nem feche as mãos de quem estende o braço para ajudar.

Foto: Tânia Rego/Agência Brasil
Esta reportagem especial utilizou trilhas de Chico Science e Nação Zumbi, Gabriel o Pensador e Racionais MCs; e trechos de textos de Manuel Mandeira (O Bicho - 1947), Gregório Bezerra (Memórias da Ditadura - 1979), Vozes da Rua (Centro POP José Pedro, 2024) e do documento sobre as Orientações Técnicas: Centro de Referência Especializado para População em Situação de Rua – Centro Pop, do Ministério da Assistência e Desenvolvimento Social (MDS).
A edição e locução de alguns dos textos que você ouviu ao longo do material foram de Daniele Monteiro;
A sonorização ficou por conta de Lucas Barbosa;
Produção e reportagem - Lucas Arruda