Consumo de uísque adulterado pode ter causado intoxicações por metanol em Pernambuco
A informação foi detalhada pelo delegado de Lajedo, Cledinaldo Orico, nesta quarta-feira (1º)
Foto: Divulgação/PCPE
A Polícia Civil de Pernambuco (PCPE) trabalha com a hipótese de que as possíveis intoxicações por metanol no Agreste tenham sido fruto de uma mercadoria de uísque adulterada. Os produtos teriam sido consumidos pelas três vítimas - até então notificadas no estado - em uma festa no município de Lajedo, no fim de agosto. A informação foi detalhada pelo delegado Cledinaldo Orico durante coletiva de imprensa na sede da Secretaria Estadual de Saúde (SES-PE), no Recife, nesta quarta-feira (1º).
Segundo o delegado, uma das vítimas comprou o produto para revender, mas acabou consumindo a bebida sem saber que estava adulterada. O nome dela não foi revelado. "Não acredito que ele sabia que estava em risco, tanto que consumiu a bebida. Ele pode ter sido atraído pelo preço mais em conta, mas por enquanto não podemos informar a quantidade de garrafas, para não comprometer as investigações", disse.
As vítimas são os cunhados Marcelo dos Santos Calado, de 32 anos, que perdeu a visão, e Celso da Silva, de 43 anos; ele não resistiu aos sintomas e faleceu. Já Jonas da Silva Filho, de 25 anos, que também veio a óbito, não tinha relação de parentesco com os outros homens.
Os cunhados deram entrada no Hospital Mestre Vitalino (HMV), em Caruaru, no início de setembro, enquanto que Jonas morreu no fim de agosto, antes de ser transferido para unidade hospitalar em Caruaru. Todos apresentavam sintomas semelhantes aos causados pela intoxicação por metanol, como dificuldades para enxergar, pressão alta e taquicardia.
Ainda segundo o delegado Cledinaldo Orico, a Delegacia de Lajedo oficiou a Polícia Civil de São Paulo (PCSP) para tentar identificar se há relação entre os casos investigados nos dois estados. Em São Paulo, são 25 casos de contaminação, sendo 18 em investigação e 7 confirmados, além de seis óbitos. “Isso é para vermos se há conexão, encontrar as similitudes das situações, ver se há indicativos de produção naquele estado ou se a produção pode ser focada aqui em Pernambuco”, pontuou.
Vigilância Sanitária
Uma segunda investigação é conduzida pela Agência Pernambucana de Vigilância Sanitária, que apenas foi notificada sobre os possíveis casos de intoxicação por metanol nesta terça-feira (30). Uma operação em conjunto deve ser realizada por diversos órgãos, em todo estado, para mapear possíveis novas mercadorias adulteradas. A diretora da Apevisa, Karla Baêta, reforçou a importância da participação popular para ajudar a identificar essas mercadorias.
“A gente trabalha com prevenção para antecipar os fatos, e é importante ressaltar que a população tem um papel crucial. Que papel é esse? De identificar durante a compra de uma bebida alcoólica possíveis fraudes, denunciar essa possível fraude à nossa ouvidoria ou à delegacia do consumidor, ou ainda ao próprio Procon-PE para que a gente possa caminhar com as investigações”, destacou.
Karla Baêta reforçou que a população deve ficar atenta aos seguintes indicativos:
- verificar se a bebida possui registro no Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA);
- rótulo completo;
- lacre adequado;
- comprar apenas em locais confiáveis.
Também é preciso redobrar a atenção com drinques prontos e evitar produtos sem procedência ou com preços muito abaixo do mercado.
Para denunciar, Pernambuco conta com o Centro de Informação e Assistência Toxicológica (CIATox-PE), que funciona 24 horas para orientar consumidores e profissionais de saúde, pelo número 0800 722 6001. As Denúncias também podem ser feitas à Ouvidoria da SES-PE (136 / ouvidoria@saude.pe.gov.br), ao Procon-PE (0800 282 1512 / (81) 3181-7000 / denuncia@procon.pe.gov.br) e à Delegacia de Crimes contra o Consumidor – Decon (81 3184-3835 / dp.consumidor@policiacivil.pe.gov.br).
Sintomas da intoxicação
Os sintomas iniciais de intoxicação podem ser confundidos com os da ingestão de álcool comum — como náuseas, vômitos, dor abdominal e sonolência. Porém, entre 6h e 24h após o consumo, podem surgir sinais mais graves, como visão turva, fotofobia, cegueira, convulsões e até coma.
A Apevisa recomenda que os serviços de saúde notifiquem imediatamente todos os casos suspeitos ao Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN) e ao Cievs/PE. Também orienta a busca ativa de pessoas que possam ter consumido bebidas da mesma origem, além da capacitação das equipes de saúde para o manejo clínico adequado, incluindo uso de antídotos específicos e hemodiálise nos casos graves.
Na área de vigilância sanitária, a orientação é intensificar a fiscalização em estabelecimentos que comercializam bebidas alcoólicas, coletar amostras suspeitas para análise laboratorial, interditar preventivamente lotes e articular ações conjuntas com Procon, Ministério Público e forças de segurança.
Investigação no país
Antes da notificação dos casos em Pernambuco, o ministro da Justiça e Segurança Pública, Ricardo Lewandowski, já havia determinado que a Polícia Federal (PF) abrisse inquérito para investigar os casos de intoxicação por metanol. Além disso, Lewandowski definiu que a Secretaria Nacional do Consumidor (Senacon) conduza apuração administrativa diante do risco sanitário coletivo relacionado à adulteração de bebidas alcoólicas.
A apuração da PF terá como foco a provável circulação de produtos adulterados em mais de uma unidade da Federação. “Trata-se de uma ocorrência grave, com reflexos na saúde pública. O inquérito policial permitirá verificar a procedência da droga e a possível rede de distribuição. No momento, as ocorrências estão concentradas em São Paulo, mas tudo indica que é uma ocorrência que transcende os limites do estado”, explicou Lewandowski.
Já o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, determinou que os profissionais de saúde de todo o Brasil notifiquem imediatamente ao Centro Nacional de Informações Estratégicas em Vigilância em Saúde (CIEVS) qualquer suspeita de intoxicação por metanol. A medida busca reforçar a vigilância e a resposta a casos suspeitos. O ministro Padilha pediu para que os gestores de saúde municipal e estaduais reforcem com os profissionais o protocolo de notificação de caso suspeito de intoxicação exógena, disponível no Guia de Vigilância em Saúde.
Reportagem - Lucas Arruda