Diabetes na juventude: a convivência com a doença sob o olhar de quem precisou mudar de vida
Em uma sociedade cada vez mais sedentária, a doença ganha proporção de maneira silenciosa
Foto: Reprodução/Arquivo pessoal
No Brasil, cerca de 20 milhões de pessoas têm diabetes. O número é estimado pela Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD), com base nos resultados do Censo de 2022 (IBGE) e no levantamento divulgado pelo Ministério da Saúde que aponta para uma frequência de 10,2% no diagnóstico autorreferido. Ou seja, quando há uma autoavaliação das condições de saúde. Por si, o cenário reforça o quanto que os dados são subnotificados.
O diabetes, que acontece quando o corpo não consegue produzir ou usar adequadamente a insulina, hormônio responsável por controlar o açúcar no sangue, pode levar a uma série de problemas de saúde, com consequências para diversos órgãos. Logo, o diabético é vitimado por uma redução considerável na qualidade e na expectativa de vida. Fatores como renda, educação, moradia e acesso a alimentos nutritivos também influenciam diretamente na relação com a doença
De acordo com o endocrinologista Fernando Gondim, os principais tipos de diabetes, 1 e 2, são diferenciados por, ao menos, dois fatores: grau de comprometimento da produção/aproveitamento de insulina e idade. No tipo 1, que é hereditário, o corpo não consegue produzir o hormônio. Já no tipo 2, que atinge cerca de 90% dos diagnosticados no país, o organismo não aproveita adequadamente o que foi produzido, mesmo que os níveis de insulina estejam normais ou elevados.
Mas o médico observa que, com o passar dos anos, o diagnóstico de jovens com diabetes, principalmente do tipo 2, tem se tornado cada vez mais frequente. “O diabetes tipo 1 costuma ser diagnosticado em crianças e jovens, enquanto o tipo 2 é mais comum em adultos, especialmente após os 40 anos. No entanto, nos últimos anos, temos visto um aumento de casos de diabetes tipo 2 em jovens, devido ao estilo de vida e hábitos alimentares pouco saudáveis”, aponta.
Em uma sociedade cada vez mais sedentária e com hábitos alimentares inadequados, desde a juventude, o diabetes ganha proporção de maneira silenciosa.
Impacto
A convivência com o diabetes na juventude ganhou o centro do debate, recentemente, devido ao remake da novela "Vale Tudo", da TV Globo. No folhetim das 21h, a personagem Solange Duprat, interpretada por Alice Wegmann, é diagnosticada com diabetes tipo 1. Não são poucas as cenas em que, Solange, uma jovem adulta, trata com naturalidade o uso da caneta aplicadora de insulina. Uma estratégia da autora Manuela Dias e da atriz para conscientizar sobre um tema tão importante em um horário de grande audiência na televisão.
Assim como Solange Duprat, Samuel Santos é da área da comunicação, mas na vida real. O jornalista descobriu em 2020, durante a pandemia de covid-19 e em meio à correria da rotina, que estava com diabetes tipo 2. Os sintomas surgiram repentinamente. Idas frequentes ao banheiro, perda de peso sem fazer dieta, visão embaçada. A solução foi procurar um especialista para entender o que estava acontecendo.
“A glicose estava em 370 mg, ou seja, muito acima do normal para uma pessoa não diabética, entre 100 mg e 120 mg, dependendo de cada organismo. Então, foi um movimento de desespero, mas, ao mesmo tempo, veio uma virada de chave muito importante na minha vida. Eu senti que, a partir daquele momento, eu precisava mudar o rumo da minha vida. Brinco até hoje que, quando eu saí do consultório, a primeira coisa que fiz foi passar em uma quitanda e comprar frutas, verduras e realmente mudar a minha alimentação”, relatou.
Uma análise feita no ano passado pela Global Burden of Disease (GBD), publicada no British Medical Journal, mostrou que, no mundo, o número de jovens entre 19 e 39 anos diagnosticados com diabete tipo 2 aumentou 56% nos últimos 30 anos. No Brasil, quase 16 milhões de adultos têm diabetes tipo 2, como Samuel
Hoje com 34 anos, Samuel lembra que o susto veio acompanhado do rápido entendimento de que precisava mudar o estilo de vida. Mesmo com diabéticos na família, ele levava uma vida bastante sedentária e desregrada, chegando a pesar cerca de 130 kg. A descoberta no contexto da pandemia também foi determinante para entender que não tinha outra alternativa: era preciso mudar.
“Foi um momento desesperador, porque foi no início da pandemia. Automaticamente recebi o diagnóstico de que estava no grupo de risco para covid-19. Então assim, ou você muda ou você muda. A partir de agora, tua vida depende dos teus hábitos”, pontua.
Resistência
Mas nem sempre o diagnóstico é acompanhado por uma boa reação, especialmente na juventude. Afinal, para quem tem uma vida inteira pela frente, são vários os questionamentos sobre o que fazer a partir da descoberta, como lidar com a doença, ou ainda, de que modo o diabetes vai atrapalhar o cotidiano. Foi assim com a estudante de Pedagogia Júlia Gabriela, de 19 anos. Ainda na adolescência, há dois anos, ela recebeu o diagnóstico de diabetes tipo 1.
“Receber o diagnóstico mexeu bastante comigo. Todos os pensamentos mudaram. Por exemplo, comecei a me questionar: como vou conviver com isso? O que não vou mais poder fazer agora com essa doença? Precisei mudar meus hábitos alimentares, cerca de 95% da minha alimentação foi só de comidas saudáveis, ao menos no início. Também tive que começar a fazer exercícios”, comentou.
A partir do diagnóstico, o acompanhamento dos pacientes requer uma atenção especial e multidisciplinar, desde a readequação alimentar, por meio de um nutricionista, até o contato com profissionais da educação física e da psicologia. O endocrinologista Fernando Gondim observa que, desse modo, é possível alcançar resultados significativos no controle da doença.
“Devido à necessidade de aplicar insulina algumas vezes ao dia, os pacientes diabéticos tipo 1 necessitam de uma verificação constante dos seus níveis de glicose, a fim de otimizar da melhor maneira possível o seu tratamento, bem como evitar complicações como os níveis muito baixos. Já o pilar do tratamento do diabético 2 é voltado para atuação em conjunto com as condições associadas, como sobrepeso e obesidade, sendo necessária a terapia medicamentosa quando bem indicada. Quanto mais cedo a identificação da doença, maior o cuidado que se deve ter a longo prazo”, reforça.
Preconceito
Há um outro elemento chave na discussão sobre o diabetes que pouco é comentado: o preconceito e a desinformação tem cadeira cativa no olhar da sociedade sobre os diabéticos. Pode não parecer, mas é um problema que, sim, atrapalha a vida de quem começa a lidar com a doença e precisa nadar contra um mar imenso de mentiras.
Pensando nisso, o designer de animação e 3D Marlon Manoá, entendeu que poderia, com a sua história, combater preconceitos e ajudar a centenas de pessoas. Ele contou à reportagem da CBN Recife que, durante a pandemia de covid-19, publicou uma série de vídeos respondendo questionamentos sobre como descobriu que tinha diabetes tipo 1, aos 14 anos, em 2017. Ou ainda, se tinha medo de contrair covid-19 estando com a doença. Os vídeos foram importantes, até mesmo, para desmistificar a aplicação de insulina.
Assim como Samuel, Manoá percebeu que algo estava errado quando, em apenas um mês, perdeu cerca de 10 kg. Nesse momento, a ajuda da família foi fundamental. “Todo mundo à minha volta percebeu, mas eu não percebi. Fizemos um exame de sangue e a glicose deu 320 mg. E aí começamos o tratamento. Eu passei a ser acompanhado por uma nutricionista e uma endocrinologista à época. Então, aprendi muito sobre nutrição, comecei a me alimentar melhor e valorizar muito mais a atividade física também”, revelou.
O jovem também chama a atenção para o fato de que o país precisa melhorar significativamente do ponto de vista de suporte. Em dezembro do ano passado, um projeto de lei (nº 2.687/2022) chegou a ser aprovado no Senado Federal para classificar o diabetes tipo 1 como deficiência, com o objetivo de garantir direitos e assistência ampliada às pessoas que convivem com a doença.
No entanto, em janeiro deste ano, o PL foi vetado integralmente pela presidência da República, sob a alegação de que havia conflito com a Convenção Internacional sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência e falta de previsão de impacto nas contas públicas e de fonte para financiamento. O veto ainda pode ser derrubado pelos parlamentares, o que Manoá diz ser uma esperança por se tratar de mais uma ferramenta de combate a preconceitos.
“Cerca de 40% das pessoas que sofrem com diabetes evitam o tratamento por causa do preconceito. Eu ouvia muito as pessoas dizendo que virei diabético porque tinha comido muito doce, quando na verdade, o diabetes tipo 1 não se trata disso, é uma doença autoimune. Às vezes era muito cansativo ser paciente com quem estava sendo agressivo, mas uma coisa que me ajudou muito foi falar sobre isso. Acabei conhecendo outras pessoas que também passavam pela mesma situação”, relata.
Recomeço
O impacto, a resistência e o preconceito, juntos, representam um desafio na vida de quem, tão cedo, precisa aprender a lidar com uma doença que parece ser muito maior do que qualquer chance de adaptação. Mas a escolha do verbo parecer não é por acaso. Porque, de fato, só parece.
Seja para o diabetes tipo 1 ou tipo 2, principais formas abordadas nesta reportagem, existe, sim, a possibilidade de um recomeço, como sustenta o endocrinologista Fernando Gondim.
“Com o tratamento e acompanhamento adequados, é possível levar uma vida normal, ressaltando que é fundamental aos pacientes ter conhecimento dessa condição e todas as implicações decorrentes do mal controle dos níveis de glicose no sangue”, declara.
Foi assim, se permitindo ao novo, que os jovens Marlon Manoá e Júlia Gabriela viram que nem tudo estava perdido. Aliás, nada estava perdido. Por isso, eles deixam uma mensagem para aqueles que estão descobrindo o diagnóstico da doença.
“Comece a tratar isso com naturalidade. É uma doença que a gente sabe como tratar. E seja paciente consigo mesmo, não é o fim do mundo e tem muita coisa ainda para ser vivida”, conta Marlon. “Hoje há remédios, insulinas e comprimidos capazes de controlar o diabetes. Não é que vá curar, mas, se cuidando, tomando as medicações corretamente, fazendo o que é certo, você vive muito bem. Se você se cuidar, o diabetes não afeta em nada na sua vida”, lembra Júlia.
E para quem ainda tem a possibilidade de adotar hábitos mais saudáveis e contornar o diagnóstico de diabetes, Samuel Santos reforça algo que deveria ser um mantra.
“É importante ir ao médico com constância para fazer um check-up geral, ver como está a sua situação. Se a pessoa está pré-diabética, ela tem ainda uma chance de reverter, de não deixar evoluir para um diabete. Cuide de sua saúde e se movimente, porque isso faz toda diferença. Existe a possibilidade de ter uma qualidade de vida mesmo com com diabetes”, conclui.
Mesmo com a correria da rotina, do trabalho, da faculdade e da própria juventude, não esqueça de se cuidar. Afinal, ainda há muita vida pela frente.
Com edição de Daniele Monteiro e sonorização de Lucas Barbosa,
Reportagem - Lucas Arruda