Segundo os profissionais, a educação e a gestão pública caminham juntas, proporcionando uma visão crítica e participativa aos estudantes
Foto: Divulgação - Escola de Referência em Ensino Médio Alberto Torres, em Tejipió, RMR/Divulgação
O primeiro espaço de convivência e socialização de muitas crianças e adolescentes costuma ser no ambiente doméstico, acompanhados da família. Mas, é na escola que os jovens passam a ter contato com noções mais amplas de cidadania, responsabilidade e participação social. É justamente neste contexto que o programa ‘Estudantes em Movimento’, coordenado pelo Conselho Nacional de Controle Interno (Conaci) em parceria com as controladorias-gerais dos estados e secretarias de educação, incentiva que os alunos sejam protagonistas no ambiente escolar.
Por meio da participação ativa na fiscalização dos acontecimentos dentro da unidade de ensino e da sugestão de novas ideias que possam ser implementadas a fim de melhorar a gestão da escola, os estudantes se aproximam de temas, muitas vezes, distantes da sala de aula. E, é nesse cenário, que professores e gestão escolar assumem um papel essencial, pois é por meio do trabalho realizado por eles que a formação dos alunos pode ir além do conteúdo curricular obrigatório.
Uma das unidades de ensino que recebeu o ‘Estudantes em Movimento’ em Pernambuco foi a Escola de Referência em Ensino Médio Alberto Torres, no Bairro de Tejipió, no Recife. Ao todo, 40 alunos do 1° ao 3° ano participaram da série de missões estipuladas pelo projeto. Como resultado da auditoria cívica, etapa onde os alunos decidem a problemática a ser resolvida dentro da escola, foi identificada que a biblioteca escolar precisava de melhorias, como explica a gestora do Erem, Girselha da Silva. “Uma das coisas que os alunos sentiam falta na escola, e que não temos como trabalhar isso porque não temos funcionários apropriados, era uma intervenção na biblioteca para que eles pudessem ter mais oportunidade de utilizar o espaço. Mesmo ela sendo de pequeno porte, mas temos uma área na frente da biblioteca que também seria uma parte para trabalhar junto com os alunos. Então, eles fizeram a organização do espaço, colocaram estantes e arrumaram os livros diariamente. Colocamos computadores na biblioteca e colocamos também estantes na parte de fora para que eles pudessem realizar trocas de livros com a comunidade externa da escola. E aí esses livros foram doados pelos professores, por alunos e pela comunidade para que houvesse troca ou doação de livros nessa parte externa da biblioteca”, detalha.
O professor de história e um dos coordenadores do projeto no Erem, Reginaldo Silva, conta que os estudantes também propuseram a criação de uma ferramenta para melhorar a transparência dos recursos públicos da instituição. “A nossa escola tem um painel que fica na entrada com a demonstração de todos os recursos, aquilo que entra, aquilo que sai. Mas os estudantes entenderam que aquilo ali ainda era insuficiente para que tanto a comunidade escolar como a comunidade em geral pudesse compreender como é que esse recurso é utilizado na escola. Então [os alunos] começaram a criar a possibilidade de software e outras ferramentas que pudessem ficar mais fácil para as comunidades acessarem as informações sobre os recursos da escola. Isso ficou como ação para depois do projeto, a ação que iremos construir agora depois do projeto”, destaca.
O professor ressalta ainda que é impossível pensar em educação pública sem levar em consideração a forma como o público é gerido. “Todo o processo educacional público precisa dialogar com a transparência da gestão pública. É muito importante que os estudantes das escolas públicas compreendam e estejam envolvidos na gestão pública dos recursos referentes à educação. É muito importante também que as famílias e a comunidade onde a escola está inserida também possam compreender e participar desse processo de gestão pública, porque se nós não tivermos uma educação pública ligada a isso, inclusive estaremos indo contra aquilo que a legislação para educação no nosso país, começando pela LDB [Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional], determina. Então é importante que os conselhos escolares estejam funcionando, conselhos de alimentação, é importante que cada escola tenha o seu conselho de alimentação para poder gerir os recursos públicos referentes à alimentação, que é um tema muito sensível, muito importante nas escolas públicas”, argumenta.
No Sertão de Pernambuco, 60 alunos do 5° ano fundamental ao 3° do ensino médio da Escola Tomé Francisco da Silva, em Lagoa da Cruz, no município de Quixaba, identificaram que a falta de água era um problema que precisava ser solucionado. Situada em uma comunidade na zona rural, a escola é abastecida semanalmente por dois caminhões pipa e não conta com tratamento de água. Situação que, segundo Ivan José, gestor da escola, requer um controle estrito para que não haja desperdícios. Ele explica como os alunos trabalharam para reverter a situação. “Nos banheiros, a gente não disponibilizava água direta, justamente para economizar. Aí na auditoria, eles propuseram que colocássemos água nos banheiros. Eles tiveram que mobilizar a comunidade para comprar caixa, comprar bomba, comprar cano e conseguiram realmente conectar e colocar nos banheiros a água da comunidade, que não era tratada. E a água do carro pipa, que era tratada, ficou só para a alimentação da escola”.
Para que o projeto desse certo, os alunos mobilizaram moradores e comerciantes locais para arrecadar materiais e dinheiro necessários para executar a obra. Até um podcast e um leilão solidário foram realizados. Maria Josineide Quidute, educadora de apoio e coordenadora do programa na escola, avalia que toda a ação serviu para estimular o senso de controle social na vida dos alunos. “Essa formação da cidadania é muito importante para que eles percebam que alguns problemas, mesmo que tenham que ser solucionados pela gestão pública, em qualquer âmbito, podem ter a resolução cobradas por alguém. Eles podem também observar em outros setores, como hospitais, prefeituras, outras instituições públicas, onde pode ser melhorado e podem estar ali, tentando buscar soluções para os problemas e tentar solucionar também o que tiver ao alcance deles e das pessoas que convivem com eles”.
O resultado final rendeu frutos aos alunos da Escola Tomé Francisco da Silva: eles foram os vencedores da categoria regional do ‘Estudantes em Movimento’ e irão representar Pernambuco na etapa nacional do programa.
No terceiro e último episódio desta série de reportagens, vamos falar como os jovens da Escola de Referência em Ensino Médio Alberto Torres, em Tejipió, na Região Metropolitana do Recife, e da Escola Tomé Francisco da Silva, em Quixaba, no Sertão do estado, foram impactados pelo programa ‘Estudantes em Movimento’ e trazer reflexões sobre o futuro do controle social.
Com edição de Daniele Monteiro e sonorização de Lucas Barbosa, reportagem Maria Luna.