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Saúde

O peso de cada passo: a retomada da mobilidade com a cirurgia bariátrica


Por: REDAÇÃO Portal

No Brasil, segundo o Ministério da Saúde, uma a cada quatro pessoas adultas vive com obesidade

17/09/2025
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No Brasil, segundo o Ministério da Saúde, uma a cada quatro pessoas adultas vive com obesidade

Foto: Agência Pará

O peso das escolhas: quando as consequências alertam para além da balança?

No Brasil, segundo o Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional (SISVAN),  do Ministério da Saúde, uma a cada quatro pessoas adultas vive com obesidade, ou seja, 34,66% da população está com algum nível da doença. O problema vai muito além da aparência: o excesso de peso sobrecarrega articulações importantes, como joelhos e quadris, elevando as chances de dor constante, desgaste precoce da cartilagem e, em alguns casos, a necessidade de cirurgia para colocação de prótese. Cada quilo adicional pode gerar até quatro vezes mais pressão sobre os joelhos a cada passo, tornando simples ações do dia a dia, como subir escadas ou caminhar, um grande desafio. O ortopedista Romeu Krause, detalha como a obesidade afeta a articulação do joelho.

“É, a gente tem dois sinais, duas coisas que são super importantes na artrose de joelho por sobrepeso. O primeiro é avaliar se esse membro inferior, se esse joelho, ele está alinhado. Ou seja, se tem aqueles desvios em varo, que é a perna cangalha, para o pessoal entender. Se tem desvio em valgo, o que é isso, aquela pessoa que a gente chama de zambeta, lógico que vai ter um desgaste maior de um lado do que do outro. E eu vou exemplificar para poder dizer isso mais fácil. Toda vez que você tem um pneu de carro que estraga e que você vai ter que trocar o pneu, ele depois manda alinhar as rodas. Ou seja, a mesma coisa se aplica para o problema do eixo dos membros inferiores. Quanto maior a sobrecarga, maior a probabilidade de desenvolver uma artrose que aí a gente vai ter que pedir ao paciente que perca peso. Cada aquilo que a pessoa tem, corresponde a 4 kg a nível do joelho. Então, isso é super importante esses dois fatores que eu falei. Primeiro, alinhamento dos membros inferiores e segundo sobrepeso. Então, tem que perder peso”.

O impacto não é apenas mecânico. O tecido adiposo também libera substâncias inflamatórias que intensificam o problema, criando um estado de inflamação contínua que agrava dores e restringe ainda mais a mobilidade. Essa condição ultrapassa o aspecto físico e afeta a vida social e emocional: muitas pessoas relatam dificuldades no trabalho, em tarefas simples como se abaixar ou atravessar a rua, além de enfrentarem preconceito e o isolamento. Forma-se, assim, um ciclo difícil de se quebrar — quanto mais dor e limitação para se movimentar, menor a prática de exercícios, e com a falta de atividade física, o ganho de peso tende a aumentar ainda mais.

“A qualquer mecanismo que você utilize para perder peso, bariátrica, o uso dessas drogas novas que tem para perder peso, você diminui a carga no joelho, lógico, é uma coisa racional que vai diminuir a carga do joelho. Então, eu falei para vocês, cada quilo que a pessoa perde são 4 kg a menos no joelho. Então, isso é super importante a perda de peso ou que seja por uso de drogas ou uso de bariátrica, a pessoa tem que fazer essa parte, para melhorar a estrutura dos ossos, principalmente a articulação dos joelhos”, concluiu Krause.

Enfrentar a obesidade não é uma tarefa simples e com fórmula pronta. Mas, cada passo em direção ao autocuidado com o corpo faz diferença. Buscar apoio médico, investir em hábitos saudáveis e não desistir diante das dificuldades são atitudes que, de fato, ajudam a conquistar mais qualidade de vida. O caminho pode ser longo, mas com persistência e escolhas conscientes, é possível transformar a rotina e seguir em frente com mais leveza.
 

Foto: Reprodução/SBCBM
Foto: Reprodução/SBCBM

 

A alternativa cirúrgica 

A cirurgia bariátrica, também chamada de cirurgia metabólica, é um dos tratamentos indicados para casos de obesidade grave. É recomendada para pacientes com IMC acima de 40, ou acima de 35, quando há doenças associadas, como diabetes, hipertensão ou apneia do sono. 

De acordo com as novas normas publicadas pelo Conselho Federal de Medicina (CFM), pacientes a partir dos 14 anos poderão fazer a cirurgia a partir de agora, caso possuam quadro grave de obesidade. 

A perda de peso tem impacto direto nas articulações. Estudos mostram que pacientes bariátricos relatam significativa redução da dor no joelho e melhora da capacidade de caminhar, subir escadas e realizar atividades diárias já nos primeiros meses após o procedimento.

Isso não só devolve o conforto, mas também a segurança e a autoestima do paciente, como explica o cirurgião bariátrico e metabólico Walter França.

“A obesidade gera um desconforto muito grande e um impacto negativo em relação à locomoção. O impacto do peso sobre as articulações é um gerador de dificuldade para a marcha. Além de que a obesidade também leva a uma dificuldade no retorno venoso do sangue dos membros inferiores, fazendo com que esses pacientes sejam tendenciosos a ter varizes nos membros inferiores e edema, que são outros fatores também geradores de desconforto e dificuldade da locomoção. Com a perda de peso, essa pressão a nível das articulações vai diminuir e vai melhorar muito a locomoção. A drenagem venosa vai melhorar, a insuficiência venosa, o edema dos membros inferiores, também tem a regredir. E, com isso, há uma melhora consideravelmente na marcha, na locomoção, que eventualmente esses pacientes que mal conseguiam andar, hoje uma boa parte deles fazem maratona, fazem corrida. Então, é sempre positivo a perda de peso, sabe, a gente está falando de um parâmetro só que é as questões ortopédicas, e aí a coluna também está inserida muito nisso, mas olha, dentro de todo o universo é só benefício que traz a perda de peso. O objetivo da cirurgia bariátrica é levar a uma reinserção social com melhor qualidade de vida e aumento da expectativa de vida. Esse é o objetivo e é exatamente isso que se consegue, sabe? Os pacientes ficam livres na sua grande maioria das doenças, dos incômodos, dos desconfortos. Desconfortos de todo ponto de vista. Clinicamente falando, através do equacionamento, hipertensão, diabetes, controle do diabetes, melhora da qualidade de sono, melhora do desempenho sexual e a facilidade da reinserção social, sabe? A recessão dentro de um contexto da vida laboral, dentro do mercado de trabalho. Tudo isso melhora a qualidade de vida, a expectativa de vida, além da saúde mental, que melhora consideravelmente. Os resultados do tratamento cirúrgico hoje, têm sido bastante convincentes e estimulantes. O índice de complicação é extremamente baixo, o período de hospitalização extremamente curto, menos de 24 horas, o retorno às atividades rápidas e a mortalidade extremamente baixa. Nós estamos hoje na lua de mel do tratamento cirúrgico da obesidade.  Apesar dos benefícios, a cirurgia exige mudança de hábitos para garantir resultados a longo prazo. É necessário acompanhamento psicológico, cardiológico, nutricional e físico, além de fisioterapia e fortalecimento muscular para proteger as articulações durante a perda de peso".

Para o cirurgião Walter França, esse acompanhamento conjunto é primordial para uma nova fase na vida de quem fez a cirurgia.

“Então, a abordagem dessa equipe multidisciplinar é que vai guiar e vai orientar para o melhor tratamento e recortes fundamentais do problema. diante de tudo isso, o mais importante é que haja uma reformulação de hábitos para se obter sucesso. A reformulação de hábitos está em uma dieta saudável, onde deve-se evitar os multiprocessados, sabe, uma dieta que envolva alimentos naturais, sabe, a atividade física é fundamental à transformação, sabe, de um indivíduo que é sedentário e passar a ser um indivíduo que tem atividade física diária. Tudo isso para o sucesso do tratamento”.

Após o procedimento, como em qualquer situação, o paciente deve manter o foco em uma rotina saudável realizando os exames e check-ups necessários para que continue sempre, caminhando para um estilo de vida melhor, sem dor e vencendo cada vez mais as limitações. A reabilitação e reinserção voltada às atividades físicas e dieta específica é delicada e transformadora com o passar do tempo, mas que leva a um futuro com ganhos clínicos, físicos e emocionais.
 

Wilson Dias/Agência Brasil

Reaprendendo a viver de novo

A história de quem vive a obesidade e decide pela cirurgia bariátrica é marcada por desafios, superação e transformação. Para muitas pessoas, a decisão vem após anos de dor, dificuldades para caminhar ou por outras limitações no dia a dia. 

Lúcia de Fátima tem 44 anos e em 2010 decidiu entrar na fila de espera do SUS para realizar a cirurgia bariátrica com bypass, e após anos de tratamentos com medicamentos controlados e dificuldade para emagrecer, em junho de 2012, ela conseguiu realizar o procedimento de forma gratuita no Hospital Getúlio Vargas, no Recife.  

Em todo o pré-operatório, Lúcia enfrentou dificuldades: foram dois anos de espera, angústia, ansiedade e medo. 

“No começo do início do tratamento em 2010, eu cheguei a pesar 108 kg. Eu tenho 1,67 m de altura, então eu estava atingindo a obesidade mórbida. 
Mas depois, mesmo com o tratamento de tudo, entre outros assuntos, eu cheguei a fazer a cirurgia com 120 kg. Devido à ansiedade, devido a todas as questões, se daria certo, se não daria, a fila de espera foi mais de 100 pessoas. Pessoas de 100, 200, 300 kg que foram ou desistindo ou infelizmente por alguma alteração que houve na cirurgia acabou falecendo e eu tive a sorte de ser sorteada em junho de 2012 para fazer cirurgia.”


A dificuldade de realizar atividades comuns no dia a dia, bem como não se identificar com o corpo que tinha, foi determinante para a tomada de decisão pela cirurgia. 

“O que me levou a optar pela cirurgia bypass bariátrica é que eu já estava com algumas dores no joelho e na coluna, pois eu tenho um problema na coluna chamada escoliose e ela é um pouco acentuada. Então, o peso já estava refletindo muito aos 33 anos de idade, que foi a idade que eu realizei a cirurgia. Então, eu optei pela questão de saúde e estética, porque muitas pessoas  avaliam que a cirurgia de bypass é só por uma questão de saúde. Não, é uma questão de estética. É uma questão de você não se ver magro, mas se ver bem com saúde, com atividade e é por isso esse motivo que me fez fazer a cirurgia de bypass e para me livrar dos remédios controlados contra a obesidade.”

Perder peso não muda apenas o corpo, mas também a vida. Cada passo dado sem dor representa independência, qualidade de vida e dignidade. Para muitos pacientes, significa voltar a trabalhar, praticar esportes ou simplesmente passear com a família sem sofrimento. O caso de Lúcia foi um sucesso: ela atingiu o objetivo esperado e a perda de peso que tanto desejava. Mas ela traz o alerta de que além da transformação física, as mudanças psicológicas não podem ser negligenciadas. 

“Ao todo foi perdido 56 kg dos 120. O peso que eu cheguei a pesar foi 65 kg. Porém, um ano depois, já em 2013, eu tive um reganho de quase 10 kg. Porque as pessoas devem entender que cirurgia bariátrica você vai fazer no seu organismo não é na sua cabeça. Então, você será uma pessoa eternamente gorda. Você sempre vai querer entrar numa padaria, numa confeitaria e sempre vai querer aquele pedaço de bolo que você não vai conseguir digerir. Você vai na churrascaria, você não vai conseguir participar daquele rodízio de massas e carnes, porque você não vai conseguir digerir uma quantidade. Então, esse reganho de peso me fez um alerta, e aí eu passei a fazer a atividade física, ao qual eu não fazia, caminhar, correr e assim, em menos de praticamente 1 mês perdi esses 10 kg lá em 2013.”

O tratamento da obesidade é multidisciplinar e deve incluir acompanhamento médico, nutricional e psicológico. Em casos selecionados, a cirurgia bariátrica pode ser um recurso seguro e eficaz para devolver qualidade de vida e mobilidade. Informação e acompanhamento profissional são os primeiros passos para recuperar a saúde.
 

A série de reportagens “O peso de cada passo: a retomada da mobilidade com a cirurgia bariátrica”, teve a edição de Daniele Monteiro, sonorização de Evandro Chaves e produção e reportagem de Marcelle Reis, Pedro Aquino e Ravir Vasconcelos.