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Os dez anos da epidemia de Zika: entre lutas e incertezas, crianças com microcefalia desafiam a ciência

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Por: REDAÇÃO Portal

A CBN Recife foi até a casa de Crislene Feitosa, mãe de Jayane Cristina, criança mais longeva com microcefalia associada à SCZ

24/10/2025
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A CBN Recife foi até a casa de Crislene Feitosa, mãe de Jayane Cristina, criança mais longeva com microcefalia associada à SCZ

Foto: Arquivo Pessoal

Por Lucas Arruda e Daniele Monteiro - Clique no 'Ouvir' para acompanhar a reportagem em áudio

Há 10 anos, uma palavra até então incomum passou a fazer parte do cotidiano de um país que teve que aprender às pressas sobre a sua complexidade: microcefalia. Na prática, a infecção pelo vírus Zika em gestantes, causada após surto entre 2015 e 2017 pela proliferação do mosquito Aedes aegypti, foi o motivo para que milhares de crianças nascessem com o tamanho do cérebro menor do que o ideal, que é de 33 centímetros. 

De acordo com o Ministério da Saúde (MS), entre 2015 e 28 de maio de 2025, o Brasil registrou 1.834 casos confirmados de Síndrome Congênita associada à infecção pelo vírus Zika (SCZ). A SCZ reúne anomalias que podem afetar o cérebro, o desenvolvimento neuropsicomotor, a visão, a audição e o sistema endócrino, desde o embrião. 

Embora não esteja presente em todos os casos, a microcefalia é a manifestação mais emblemática da síndrome. Em 10 anos, por causa da infecção pelo vírus Zika em gestantes, foram 1.429 crianças nascidas com a cabeça medindo igual ou menos que 31,9 cm, no caso de meninos, e 31,5 cm, no caso de meninas. 

Desde o começo, a incerteza e o medo caminham lado a lado das mães, pais e familiares que dedicam a vida a prestar o apoio necessário a essas crianças. Com o passar dos anos, eles descobrem avanços, dificuldades e dores - seja pelo sofrimento dos próprios filhos ou pela perda dos anjos que hoje já não precisam mais sofrer. Uma caminhada que é marcada por silêncio e luta.

Jayane

Por meio da União de Mães de Anjos (UMA-PE), a reportagem da CBN Recife foi até o Alto José Bonifácio, na Zona Norte da capital, para visitar a casa de Crislene Feitosa, mãe de Jayane Cristina: a criança mais longeva com microcefalia associada ao vírus Zika.

Terceira filha da família, Jayane nasceu em 28 de maio de 2015, no Recife, cerca de três meses antes do surto de casos de SCZ no Brasil, onde Pernambuco foi o epicêntro. Na vida da mãe de Jayane, Crislene, todo dia é um descobrimento. Depois de uma gestação sem complicações, veio a informação avassaladora de que a caçula recém-nascida não passaria dos três meses de vida, dita por todos os médicos que a examinaram. O tempo, no entanto, mostrou o contrário, como reforçou a força de uma mãe.

"Foram 10 anos de luta, de tirar força de onde eu não sabia que poderia tirar, mas acima de tudo, até aqui Deus nos sustentou. Eu tive que abrir mão um pouco dos meus outros dois filhos, porque Jayane requereu de mim todo cuidado, toda atenção, porque era tudo novo. Foram 10 anos de muita luta travada com o governo para ter qualidade de vida, saúde, políticas públicas de qualidade”, pontuou.

Crislene é a voz de centenas de mães e pais que se sentiram sozinhos na jornada com seus filhos ao longo dos últimos anos. Com exceção  da ajuda de entidades como a União de Mães de Anjos (UMA-PE) e a UNIZIKA, o Estado nem sempre se fez presente - desde o apoio financeiro às famílias até ao mínimo esperado, como a garantia do saneamento básico em locais como o Alto José Bonifácio, onde a pequena Jayane mora. 

Ao longo de uma década, estudos mostraram que fatores ambientais estavam diretamente ligados ao surto de Zika, principalmente no Nordeste, com altos índices de vulnerabilidade social e precariedade do saneamento básico e do acesso à água potável.

“O Estado errou”

Depois de 10 anos de muitas reivindicações, enfim, a portaria conjunta publicada pelo Ministério da Previdência Social e pelo Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), em 8 de setembro, estabeleceu o pagamento de uma indenização por danos morais às crianças, no valor de R$ 50 mil, em parcela única, e uma pensão mensal e vitalícia, no valor de R$ 8,1 mil. E mais, por meio do ministro Wolney Queiroz, durante o programa ‘Bom Dia, Ministro’, da Empresa Brasil de Comunicação (EBC), um reconhecimento.

“O Estado brasileiro, enquanto país, falhou. Primeiro porque deveria ter evitado a contaminação. Se houvesse tido um controle maior do mosquito, talvez menos crianças tivessem nascido com microcefalia. Se as mães tivessem sido acolhidas e mais bem tratadas (pelo Estado) no início, talvez mais crianças estivessem vivas. E agora, (conceder a indenização e a pensão vitalícia) só dez anos depois é a prova cabal de que o Estado demorou. Mas o importante é olhar para frente! É olhar que a partir de agora elas podem ter uma condição melhor e vão ter um acolhimento por parte do Estado. Essa indenização é, na minha opinião, um pedido de desculpas. O Estado errou e precisa reparar”, reconheceu Wolney Queiroz.

O Governo Federal deu início, no mês de setembro, ao pagamento da indenização às famílias das crianças nascidas entre 1º de janeiro de 2015 e 31 de dezembro de 2019. A CBN Recife apurou com as famílias que o mês de novembro foi dado como prazo máximo para que todas as mães recebam a indenização e seja iniciado o pagamento da pensão.

Para Crislene Feitosa, é preciso que se olhe para algo que vai muito além do valor pago. "Pode melhorar a qualidade, mas minha filha vai deixar de ser cadeirante? Minha filha vai falar? Eu vou precisar deixar de lutar por ela? Não. Porque isso é uma pequena barreira que foi quebrada. O governo está assumindo o erro dele, porque se a gente vivesse em uma sociedade que não precisasse armazenar água, que tivesse saneamento básico, uma qualidade de vida para todos os cidadãos, nossa filha não teria sido acometida pelo Zika. Não só a minha, como várias crianças", afirmou.

O futuro

Como serão os próximos anos das crianças com microcefalia associada à Sindrome Congênita do Zika? Essa é uma preocupação da ciência no mundo inteiro e algumas respostas têm sido dadas ao tempo, mesmo indeterminado, em que as crianças crescem. No Brasil, uma parceria entre pesquisadores da Universidade de Pernambuco (UPE), da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), com pesquisadores da London School of Hygiene & Tropical Medicineum (LSHTM), da Inglaterra, pesquisam sobre os impactos a longo prazo para famílias afetadas pela epidemia de Zika (LIFE Zika) e acompanha o desenvolvimento das crianças.

O pesquisador Demócrito Miranda se debruça sobre o tema há 10 anos, e destaca que um dos objetivos da pesquisa é identificar o que há de novo, como a descoberta em Pernambuco de que crianças com microcefalia tem mais chance de desenvolver criptorquidia, também conhecida como "testículo escondido", que pode levar a complicações como câncer.

"Também identificamos alterações endocrinológicas nessas crianças mais frequentemente do que em outras na idade delas. A dificuldade de deglutir, que é a disfagia, então às vezes ela precisa de procedimentos para criar vias alternativas de alimentação. A epilepsia de difícil controle também é um achado muito comum em cerca de 70% das crianças, e muitas delas têm um diagnóstico clínico que é chamado de paralisia cerebral do tipo espástica, que leva a muitas limitações pelo mal desenvolvimento do aparelho motor, afetando a mobilidade. Então, são achados que nós temos descrito ao longo do período da pesquisa", detalhou.

A necessidade de cirurgias no quadril é outra constante na vida de centenas de crianças com microcefalia associada à Síndrome Congênita do Zika (SCZ), e dor é a palavra que define a rotina delas. Mas em 10 anos, as histórias desses pequenos e de suas famílias não se resumem a apenas sofrimento. 

Há, sobretudo, muito amor e esperança por dias melhores, especialmente por aqueles que dedicaram a vida a cuidar do bem mais precioso: um filho - no ontem, no hoje e no amanhã. “A luta continua. Eu espero que Jayane e seus amigos vivam 10 e muitos anos mais, em nome de Jesus”, apela Crislene Feitosa, cujas palavras são como uma oração ao tempo.

Produção e Reportagem: Lucas Arruda
Edição: Daniele Monteiro