Projeto Raízes cataloga baobás em Pernambuco com mapeamento audiovisual
Os baobás simbolizam resitência, sabedoria, força e a ancestralidade do povo negro
Foto: Projeto Raízes
Baobá, espécie imponente de origem africana que simboliza resitência, sabedoria, força e a ancestralidade do povo negro. Mas os baobás também são carregados de muito misticismo, seja do ponto de vista religioso ou até mesmo por toda história que essas árvores presenciaram ao longo dos últimos séculos no Brasil. E em Pernambuco, uma iniciativa inovadora percorre o estado em busca das histórias fincadas no solo: o Projeto Raízes, idealizado pelo pesquisador, diretor e ambientalista Mateus Guedes, e desenvolvido em parceria com a produtora cultural Ana Sofia.
Por meio de um mapeamento audiovisual iniciado em 2019, 20 árvores foram catalogadas e identificadas de acordo com o contexto geográfico, social e cultural. O auxílio de uma equipe especializada, formada pela historiadora Pallomma Darmnea, pelo arquiteto urbanista Marcelo Figueiredo e pelo botânico Gilberto Alves, foi fundamental para fazer com que a curiosidade do pesquisador Mateus Guedes alcançasse as quatro macrorregiões de Pernambuco.
“Fui descobrindo a presença dessas árvores em outros locais do estado, no Litoral Sul, no Agreste, e até no Sertão. A partir disso, fui entendendo também os baobás como símbolos da presença negra. São árvores que trazem essa essa marca da resistência negra, da ancestralidade africana. O projeto toma uma proporção muito maior do que a gente esperava, com mais de 150 árvores aqui na cidade, mais de 200 em Pernambuco. Acaba que hoje estamos pesquisando e encontrando mais informações”, declarou.

Foto: Projeto Raízes
Na fase atual do projeto, que ganhou apoio do edital Funcultura Geral 2022, foram catalogados os baobás das cidades do Recife (uma das maiores concentrações da árvore no mundo), Itambé, Ipojuca, Cabo de Santo Agostinho, Ribeirão, Arcoverde, Serra Talhada, São José do Belmonte, Sanharó, Buenos Aires, Limoeiro e Vicência.
Segundo Mateus, assim como há baobás centenários, alguns com mais de 250 anos, a espécie não deixa de ser plantada. Isso faz com que a catalogação de novas árvores ainda aconteça - seja pelos próprios integrantes ou por pessoas que tomam conhecimento da iniciativa e mantêm diálogo.

Foto: Projeto Raízes
Conhecimento e preservação
Como parte importante da história negra no Brasil, a oralidade também está muito presente naquilo que se sabe sobre a origem dos baobás. Em Vicência, na Mata Norte de Pernambuco, ergue-se um baobá com 15 metros de altura, 8,5 metros de circunferência e 120 anos. A árvore foi plantada em meio ao período escravocrata, de onde hoje é possível ver a antiga casa-grande e a capela Engenho Poço Comprido.
“Essas árvores muito possivelmente foram trazidas por sacerdotes africanos ou pessoas voltadas à espiritualidade, que entendiam o baobá como sagrado, ou até mesmo como forma de sobrevivência, porque o fruto do baobá carrega muitas propriedades importantes. Então, muito possivelmente essas árvores mais antigas foram plantadas por essas pessoas”, acredita.

Foto: Projeto Raízes
Um dos pilares do Projeto Raízes é a educação, com a perspectiva de instruir sobre a importância da presença e da preservação da espécie.
“A gente pode desenvolver mais ações, conscientizar mais a população em relação à preservação e o cuidado com essas árvores que estão muito esquecidas, inclusive pelo poder público. Muitas delas são tombadas e as placas de tombamento foram arrancadas ou estão deterioradas. Algumas árvores têm parasitas crescendo em cima e até outras espécies de plantas, que acabam, aos poucos, matando a árvore. Então, a ideia é que a gente traga cada vez mais conscientização ambiental para que se possa manter esse patrimônio tão importante para a nossa história em pé”, conclui.
Os registros das 20 árvores catalogadas estão disponíveis no site www.osbaobas.com.br. Todas as imagens disponibilizam audiodescrição como ferramenta de acessibilidade para pessoas com deficiência visual. O Projeto Raízes é um agente ativo da memória, mas sobretudo, de celebração da importância da “árvore da vida” para o povo negro em Pernambuco.
Reportagem - Lucas Arruda