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Política

Opinião | O agro não se diagnostica pelo vidro do carro


Por: REDAÇÃO Portal

17/12/2025
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Por Pedro Veloso

Li com atenção o artigo de um renomado colunista do Sudeste sobre a nossa Zona da Mata. O texto é bonito, bem escrito, com aquela prosa fluida de quem sabe contar histórias. Mas, ao descrever sua viagem de férias rumo ao litoral pernambucano, o autor cometeu o pecado capital da agronomia de gabinete: o "diagnóstico de para-brisa".

Do conforto do carro, provavelmente com o ar-condicionado isolando o calor tropical, o ilustre visitante olhou para fora e decretou a morte da cana-de-açúcar nordestina. Viu lavouras que julgou "depauperadas" e "condenadas". É curioso como a velocidade de um automóvel em direção ao lazer pode distorcer a análise técnica de quem, por um momento, trocou o chapéu de especialista pelo de turista.

O colunista tem razão em um ponto: nossos morros são desafiadores. Mas erra feio, e com certa soberba "sudestina", ao sugerir que vivemos apenas de "memórias do passado". Dizer isso é desconhecer que, sob aquele solo de massapé que ele viu de relance, existe uma revolução silenciosa acontecendo.

Enquanto ele lamentava a falta de colheitadeiras gigantescas — que de fato não sobem ladeiras —, nós, engenheiros e produtores locais, estamos utilizando drones de alta precisão, introduzindo variedades geneticamente adaptadas ao estresse hídrico e liderando o uso de insumos biológicos no país. Aqui não é a do tamanho da máquina que conta, é a inteligência por metro quadrado.

A sugestão poética do artigo, de substituir 90 mil hectares de cana por "florestas de mogno e cedro", revela um descolamento brutal da realidade econômica. Árvores são lindas e sequestram carbono, mas não pagam a feira semanal das milhares de famílias que dependem do ciclo anual da cana. Sugerir que o produtor espere 15 ou 20 anos para colher madeira, enquanto a fome bate à porta hoje, é uma solução de quem analisa planilhas em escritórios refrigerados na Faria Lima, mas nunca teve que gerir o fluxo de caixa de uma propriedade rural no Nordeste.

Sabemos fazer conta e não fugimos da realidade: sim, o Nordeste hoje representa cerca de 10% da moagem nacional. Mas quem usa esse dado para decretar nossa irrelevância não entende a grandeza do que ele significa. Manter essa fatia viva, enfrentando relevos acidentados e regimes hídricos instáveis, muitas vezes com uma fração dos recursos e incentivos historicamente destinados ao Centro-Sul, não é sinal de fraqueza. É um atestado de vitalidade. Esses 10% são a prova cabal da nossa resiliência, sustentados por produtores que, mesmo com menos holofotes, entregam resultados onde muitos desistiriam.

A Zona da Mata não precisa da piedade de quem passa por ela a caminho do resort. Ela precisa de respeito.

O que pareceu "bizarro" aos olhos do viajante apressado é, na verdade, a teimosia técnica de quem faz brotar riqueza onde a mecanização fácil não chega. Nossos canaviais não estão pedindo arrego, nem implorando para virar floresta contemplativa para turista ver. Eles estão exigindo técnica — algo que nós entregamos todos os dias, com a botina suja de barro, e não de areia da praia.

Convido o ilustre autor a voltar. Mas dessa vez, sem a pressa do veraneio. Desça do carro, desligue o ar-condicionado e venha caminhar no canavial.

Não somos reféns da nossa história, somos impulsionados por ela. O Nordeste canavieiro continua sendo uma potência global não por acaso, mas porque aprendeu a transformar cada dificuldade do relevo em dado, e cada dado em decisão estratégica. A verdadeira vanguarda não está apenas em ter o maquinário mais caro da vitrine, mas em possuir a gestão mais eficiente da porteira para dentro. É a união da tradição secular com a inteligência agronômica moderna que nos mantém competitivos.

O futuro da nossa região não depende de milagres ou de trocar nossa identidade produtiva por aventuras exóticas. Ele depende — e já está acontecendo — do planejamento agrícola rigoroso, do controle de custos e da visão de negócios afiada. Quem olha de longe, com lentes de pena, vê sofrimento, quem tem a coragem de empreender e aplicar gestão técnica aqui, vê oportunidade, lucro e desenvolvimento. A cana nordestina não é um retrato na parede. É uma indústria viva, profissionalizada e, acima de tudo, orgulhosa de suas raízes.

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