Opinião | O fim da festa, a ressaca do preço e a lição que vem da cerveja
Por Pedro Veloso
Existe um silêncio diferente pairando sobre o Nordeste nos últimos meses. Não é o silêncio da paz, é o da apreensão. Nos postos de gasolina, nas revendas e nas reuniões das associações, o assunto é um só: a conta da cana que não fecha.
Com a tonelada remunerando próximo aos R$ 130, e o custo de produção teimando em romper os R$160, o produtor canavieiro nordestino sente o chão tremer.
Diante de tanta lamúria, cheguei a pensar em vender lenços perante a tristeza que se instaurou. Seria o negócio mais garantido da safra. Apesar disso, observando com atenção, percebo que existem dois tipos de insônia nesta crise.
De um lado, vejo o produtor que tem os números na mão. Ele está preocupado, claro. Ele sabe que o ano é de "vacas magras", sabe exatamente onde o calo aperta e quanto de prejuízo pode absorver sem quebrar. Ele dorme mal, mas acorda com um plano. Do outro lado, vejo a agonia muda daquele que opera no escuro. Esse não tem dados, tem sensações. Ele sente que o dinheiro acabou, mas não sabe por onde ele escapou. Para este, a ansiedade é paralisante, pois não se combate um inimigo que não se enxerga.
É nesses momentos de aperto que gosto de revisitar as lições do professor Vicente Falconi. Relendo seu livro - O Que Importa é Resultado -, me deparei novamente com uma história brasileira fascinante que parece ter sido escrita para o nosso momento atual, embora tenha acontecido numa fábrica de cerveja.
Imagine o cenário: início dos anos 90, o Brasil escancara as portas para o comércio exterior e a proteção que blindava a indústria nacional cai por terra. De repente, a Brahma, que reinava absoluta, viu sua hegemonia ameaçada por gigantes globais infinitamente mais ágeis e baratos. A empresa era um transatlântico pesado navegando num mar onde agora entravam lanchas de corrida, tinha excesso de gente, processos arcaicos e custos que ninguém sabia explicar. A abertura econômica foi o banho de água fria que revelou a verdade nua e crua: a gordura acumulada em anos de mercado fechado não era saúde, era risco de infarto. Ou eles aprendiam a ser eficientes na marra, ou virariam estatística na mão dos gringos.
O modelo que Falconi ajudou a implementar ali virou lenda no meio industrial brasileiro. Eles não tinham escolha: ou mudavam a cultura, ou desapareciam. Foi preciso cortar na carne? Foi. Mas, principalmente, foi preciso mudar a mentalidade. Eles pararam de gerir a empresa baseados em "eu acho" e passaram a gerir baseados em "nós medimos". E assim a Brahma se tornou hoje a maior cervejaria do mundo, a AB InBev.
O Agro, aqui no Nordeste, vive hoje o seu momento Brahma, só que dos anos 90, no final da festa, quando acenderam a luz e o elefante apareceu no meio da sala.
O açúcar em alta foi um anestésico formidável. Ele nos permitiu o luxo da incompetência. Reformamos canaviais sem critério técnico, trocamos de caminhonete e deixamos os processos envelhecerem como leite fora da geladeira. Agora que o efeito da anestesia passou, a dor da ineficiência apareceu.
O perigo nesse momento, é o produtor querer virar o 'Executivo da Faria Lima' da noite para o dia e achar que planilha resolve problema de gente. Até ajuda, mas não resolve. Campo tem cheiro, tem humor e tem tempo. Se você tratar seu funcionário como uma peça de reposição num momento de escassez de mão de obra, vai descobrir da pior maneira que cana não tem lealdade: ela definha se não tiver quem cuide.
A gestão eficiente não é sobre mandar todo mundo embora ou escravizar a equipe com metas impossíveis, é sobre tirar o hospício do dia a dia. É saber o que está acontecendo, garantir que a ferramenta esteja no lugar certo e que a ordem não mude a cada cinco minutos. Organização é o maior calmante que existe para uma equipe estressada.
Dentro desse cenário, o subsídio que buscamos em Brasília — pleito legítimo da AFCP e Asplan — entra como aquele cheque especial que salva o mês. É vital, é justo e tem meu apoio total. Mas devemos encarar o subsídio como ele é: um analgésico para a febre, não um antibiótico para a infecção. A infecção se cura mudando hábitos.
E pensando em hábitos, para aquele produtor que hoje sofre no escuro, sem saber seus custos, deixo um convite que soa como alerta: saia da zona de conforto antes que ela vire sua cova. O tempo da agricultura intuitiva, feita apenas na base do achismo, acabou. O novo Agro não pede licença, pede eficiência.
Quem não tiver a humildade de aprender a fazer conta e a coragem de mudar processos, infelizmente, estará fadado a entregar as chaves da propriedade. A escolha, no fim das contas, não é entre lucrar ou empatar. É entre evoluir agora ou encerrar as atividades amanhã.
Acabou que não vendi lenços. Curemos nossas mágoas, heroicamente como sempre fizemos, e sigamos em frente. Porque cá entre nós: a ressaca pode até vir do preço e a lição pode vir da Brahma. Mas, para curar as mágoas, nada de descer quadrado: eu prefiro a cachaça.