Cientista político Felipe Nunes, da Quaest, lança novo livro no Recife
Às 15h30 desta quinta (21), na Livraria Jaqueira, no bairro do Recife, Felipe realiza um momento de bate-papo e autógrafos
Foto: Frederico Marinho Caravita
Por Lucas Arruda
O cientista político e sócio-fundador da Quaest, Felipe Nunes, lança no Recife, nesta quinta-feira (21), o seu novo livro “Brasil no Espelho”. Às 15h30, na Livraria Jaqueira, no bairro do Recife, Felipe realiza um momento de bate-papo e autógrafos. A obra é fruto de uma pesquisa com quase 10 mil pessoas, reunindo dados que ajudam a compreender a relação do brasileiro com temas como religiosidade, meritocracia, ideologia e confiança.
Em si, “Brasil no Espelho”, feito em parceria com a TV Globo, mostra um panorama do país e, ao mesmo tempo, os caminhos possíveis para o futuro. A CBN Recife conversou com Felipe Nunes sobre o livro e as suas visões quanto ao cenário nacional, considerando as pesquisas realizadas pela Quaest.
Foto: Divulgação
Entrevista
Lucas Arruda: Felipe, o livro é baseado em uma pesquisa feita com quase 10 mil pessoas sobre temas diversos. Queria que você detalhasse um pouco sobre como essa pesquisa aconteceu e o que se pretendia descobrir em campo.
Felipe Nunes: “Um dos grandes temas do Brasil, e fala-se muito já há algum tempo, é a polarização. A gente vê como, no processo eleitoral, a polarização vai marcando as disputas, as conversas. E uma das questões que estavam colocadas era: mas o que une o Brasil? O que ainda faz essa nação ser chamada de Brasil? E a TV Globo me procurou com esse desafio de pensar como é que a gente pode estudar o Brasil sob a perspectiva da unidade. Daí que surge a ideia de colocar os brasileiros diante do espelho, o espelho que não mente, para a gente discutir valores, para a gente discutir atitudes e preferências do povo brasileiro. A TV Globo tem um projeto super interessante chamado Sintonia com a Sociedade. A pesquisa do Brasil no espelho se encaixa exatamente nesse programa. E foi uma oportunidade muito rica de fazer a maior pesquisa já feita da história do Brasil, mapeando numa amostra representativa de sexo, idade, escolaridade, renda, religião, raça, e claro, a distribuição regional do Brasil. Isso permite estudar religião, os temas da família, a discussão sobre o mercado de trabalho, os sonhos dos brasileiros, os medos… como é que a gente lida com sexualidade, com jeitinho. Quer dizer, há vários temas super interessantes. E o que a gente consegue mapear com a pesquisa é que, por exemplo, o brasileiro é um povo de muita fé, que valoriza muito a família. Um povo super trabalhador, mas que está cansado. Um povo que começa a enxergar no mérito e no empreendedorismo forças importantes, uma população que está com medo da violência urbana e que está muito desconfiada. Esses são alguns dos grandes achados que a gente tem no livro e que são baseados exatamente nessa pesquisa enorme que a gente fez em parceria com a TV Globo.”
L.A: De modo geral, que Brasil temos em 2026? Quem é o brasileiro ou quais são os perfis que mais se destacam?
F.N: “A partir dessa pesquisa enorme, dessas quase 10 mil entrevistas, consegui desenvolver um modelo estatístico que classifica os brasileiros em nove grandes grupos. São grupos que têm valores parecidos entre si e que têm atitudes diferentes. A gente descobriu, por exemplo, que o maior segmento de identidade brasileira são os conservadores cristãos. 27% dos brasileiros afirmam fazer parte desse grupo. O segundo maior é o que a gente chama de classe D e E, os dependentes do Estado. 23% compõem esse segundo segmento. Depois vem o agro, com 13%. É uma identidade muito importante. Imagine você, o agro já é a terceira maior identidade política e de consumo no Brasil. Depois a gente tem 11%, que são os progressistas. Essa também é uma identidade super importante para o país. E aí a gente começa a ver uma fragmentação maior, por exemplo, 6% dos brasileiros são o que a gente classifica de empresários. Essa é uma identidade muito específica. 5% são os empreendedores individuais, outros 5% são os liberais sociais. E aí você tem 7% de militantes de esquerda e 3% da extrema direita. Quando a gente olha para esses nove grupos, a gente entende perfeitamente como essas identidades se comportam politicamente. Essa é uma grande contribuição para o Brasil, para entender a política, mas também o comportamento de consumo do brasileiro.”
L.A: Felipe, o que “Brasil no Espelho” revela de diferente em relação ao país que se podia encontrar em “Biografia do Abismo”, livro que você escreveu com Thomas Traumann?
F.N: “Tanto ‘Biografia do Abismo’ como ‘Brasil no Espelho’ são dois trabalhos dos quais eu me orgulho muito, porque eles carregam aquilo que eu considero super relevante, que é um trabalho muito intenso de coleta de dados, de organização de evidências. E, claro, de uma análise que utiliza modelo estatístico, muito rigor para tratar as informações. Os dois livros me orgulham muito por conta disso. Agora, o ‘Biografia do Abismo’ é um livro que tem uma tese muito clara: o voto no Brasil está se calcificando. Basicamente, a ideia é que, se você votou num candidato A numa eleição, a probabilidade de você votar no candidato do mesmo partido na próxima eleição é muito grande. Estou falando basicamente da divisão petismo-antipetismo. E isso é o que justifica e ajuda a explicar essa polarização que está cada vez ficando mais frequente e sendo normalizada na política. Na minha avaliação, o ‘Brasil no Espelho’ é uma certa continuidade dos estudos sobre comportamento, onde a gente consegue ver política e consumo se aproximando. Mas agora a gente aprofundou nos valores desse eleitor que vota de um lado ou que vota de outro, que tem na sua visão de mundo, na sua identidade, um comportamento que o define.”
L.A: O que o leitor pode esperar de “Brasil no Espelho” e o que você gostaria que ele pudesse compreender?
F.N: “Quem tiver a oportunidade de ler o “Brasil no Espelho” e puder adensar o conhecimento sobre o Brasil, vai ver que o país mudou muito nos últimos 20 anos. Quando a gente faz uma comparação, uma recuperação histórica, há mudanças estruturais muito significativas. Essa transição demográfica, transição religiosa, transição informacional. E isso aconteceu muito rápido no Brasil. Eu tenho certeza que as pessoas vão se surpreender com os grandes movimentos que a gente documenta no livro. Eu espero, sinceramente, que o livro seja um instrumento de planejamento para que o Brasil possa realizar o sonho de ser, de fato, não o país do futuro, mas o país do presente. E nada melhor do que ter dados e evidências para orientar o planejamento do país para os próximos anos. Então, esse livro, no fundo, é uma gravação. Grande ferramenta para quem trabalha com comunicação, para quem trabalha com marketing, para quem trabalha com comportamento de consumo, e para quem trabalha com política. Para entender os anseios, desejos e sonhos da população brasileira.”
Serviço
Lançamento Brasil no espelho:
RECIFE
Quando: 21 de maio, às 15h30
Onde: Livraria Jaqueira (Unidade Recife Antigo) – Rua Madre de Deus, 110 – Jaqueira, Recife – PE, 50030-030
Sobre o autor
Felipe Nunes é Ph.D. em ciência política e mestre em estatística pela Universidade da Califórnia em Los Angeles. É professor da escola de economia da Fundação Getúlio Vargas em São Paulo. Sócio-fundador da Quaest, coordenou centenas de pesquisas eleitorais, além de estudos de mercado sobre reputação, consumo e comportamento. É coautor do best-seller Biografia do abismo, finalista do prêmio Jabuti na categoria não-ficção em 2024. Atua como consultor de governos, bancos, empresas de mídia e de varejo.
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